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Cursos, concursos, artigos, informações, etc.

Naadiya

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CAPÍTULO 1 – O CURSO DE GASTRONOMIA

Ana Célia estava muito ansiosa, pois era o primeiro dia de aula de um novo curso.

O prédio da escola era simples, mas confortável e aconchegante.

Na grande sala de aula as carteiras eram cuidadosamente ordenadas em cinco fileiras, de onde se podia ver o quadro negro ocupando praticamente toda a extensão da parede frontal, enquanto a mesa do professor, embora antiga, se destacava num ambiente construído alguns centímetros acima do nível do piso da sala.

Ana deixava seus pensamentos divagarem livremente enquanto aguardava o início daquela nova jornada de aprendizado.

Será que ela iria conhecer pessoas interessantes e simpáticas, será que iria gostar das aulas, dos colegas, dos professores?

Ana sentou-se ao lado de uma moça muito bonita e bem vestida, que usava um perfume muito agradável e trazia no rosto aquele olhar típico das mulheres de personalidade forte e marcante.

— Muito prazer, meu nome é Dina!

— O prazer é todo meu, meu nome é Ana Célia…

Dina era uma mulher bonita, doce e inteligente. Bastaria olhar para ela por alguns segundos para perceber que se trata de alguém que sabe se manter no controle da situação.

Depois de se olharem por alguns segundos, Ana perguntou:

— Será que vamos aprender coisas interessantes nesse curso de gastronomia?

Dina sorriu ao responder:

— Espero que sim, senão vou querer meu dinheiro de volta…

Elas estavam rindo quando a professora entrou na sala. Era uma senhora que estava entre seus quarenta e cinquenta anos, que chamava a atenção devidos aos seus cabelos encaracolados e loiros muito maltratados pelo tempo.

Seus gestos denotavam uma certa insegurança e seu semblante deixava claro que estava ali uma mulher que pretendia ser austera sem convencer ninguém de que tinha motivo para isso.

Após se apresentar como “professora Claudete”, ela começou a falar da história da arte da confeitaria profissional no mundo.

Em dado instante, talvez para expor as diferentes espécies de animais usados na culinária moderna, Claudete resolveu expor sua crença na teoria da evolução de Darwin.

Ana Célia notou que Dina não estava gostando nada daquilo, porque ela balançava a cabeça de vez em quando, até que em dado momento ela levantou a mão, solicitando a palavra:

— Professora, eu poderia aceitar a teoria que a senhora está nos apresentando se alguém me explicasse como muitas espécies de animais e plantas da Terra surgiram “do nada”, pois não tiveram antepassados dos quais possam ter evoluído e a ciência nunca soube explicar de onde elas vieram.

O semblante da professora mudou imediatamente, deixando claro que ela não gostou nada do que ouviu.

Dina continuou:

— Por exemplo, a senhora pode me explicar como os peixes se transformaram em anfíbios? Onde estão os elos necessários para provar isso?

A professora ficou paralisada, estava claro que ela não sabia o que falar. Dina aproveitou para continuar:

— A senhora notou também que os animais terrestres antigos, que são conhecidos na atualidade, sempre “apareceram” na história da terra com membros e cabeças bem definidos? Não tem nada que nos faça pensar que um animal se “transformou” em outro…

A professora começou a gaguejar:

— Olha, eu… sabe o que é…

Dina não deixou a professora delinear ideia alguma e prosseguiu:

— A senhora já pensou também que após o cataclisma que extinguiu os dinossauros, surgiram diversos grupos de mamíferos ao mesmo tempo e todos muito bem definidos?

A professora procurou esconder sua irritação:

— Vamos fazer assim, depois da aula a gente conversa sobre isso, não podemos discutir esse assunto aqui, desse jeito não vou ter tempo de concluir a matéria dessa primeira aula…

— Desculpe, professora — interrompeu Dina —eu tenho um compromisso inadiável com a minha colega Ana Célia logo após a aula. Mas podemos conversar outro dia.

Percebendo que Ana Célia não tinha entendido nada, Dina sussurrou para ela:

— Depois da aula quero conversar com você!

Ana Célia assentiu com a cabeça, mas ficou pensativa. O que será que Dina queria falar com ela, já que mal haviam se conhecido?

A aula continuou sem grandes novidades, a não ser que Dina corrigiu a professora mais duas ou três vezes.

Na saída Ana Célia perguntou:

— Como você sabia aquelas coisas que nem a professora sabia?

— Gosto muito de estudar e, principalmente, de pensar…

— Preciso perguntar se você não é…

A pergunta de Ana não deixou Dina embaraçada.

— Lésbica? De jeito nenhum, não gosto de mulher, pode ficar tranquila quanto a isso…

— Estou perguntando porque hoje em dia está difícil… além disso sou casada e muito bem casada.

— Que bom! — exclamou Dina. Conte-me alguma coisa sobre seu marido, sobre sua vida, afinal de contas vamos ser amigas.

— Bem, eu e meu marido vivemos bem, ou mais ou menos bem, temos umas brigas às vezes, mas…

— Não entendo isso de “ter umas brigas” — interrompeu Dina. Briga é coisa de quem não se gosta, quem briga é inimigo. Sempre pensei que duas pessoas que se gostam devem se ajudar mutuamente e deixar as brigas para aqueles que se odeiam.

— Mas são brigas normais de casal, disse Ana Célia.

— Minha querida, não existe briga normal. Brigar nunca é normal, normal é conversar, se entender, mesmo que um não concorde com o outro.

— Mas as coisas não funcionam assim nesse mundo! De que planeta você veio, você nunca foi casada, nunca teve um relacionamento?

— Só posso dizer que nunca briguei. Quando alguém quer brigar comigo eu o deixo brigar sozinho. Mas me diga uma coisa, se você briga com ele não é melhor terminar o relacionamento?

— Eu não quero terminar com ele, eu preciso dele…

— Por que você não quer terminar se briga com ele?

— Bem, a minha vida era vazia antes de conhece-lo, e sinto que não consigo mais viver sem ele…

— Mas a sua melhorou desde que estão juntos?

— Melhorou em alguns aspectos, mas não em outros.

— É bem confuso isso…

Dina olhou para Ana Célia como quem fosse fazer uma revelação:

— Olha, eu fiz um curso de Psicologia e depois de terminar esse curso que estamos fazendo vou começar um mestrado nessa área. Quero convida-la a vir em casa para conversarmos mais, estou querendo delinear a minha tese para o mestrado e você é a pessoa ideal para me ajudar.

— Quer me usar como cobaia?

Dina sorriu e respondeu:

— Não é isso, está interpretando de modo errado…

— Tudo bem, é só me dar seu endereço que eu vou…

Depois de passar seu endereço e marcar o horário da visita para o dia seguinte, Dina falou:

— Não se esqueça, briga é coisa de inimigos, quem se gosta conversa, compreende, ajuda…

— Ok, vou pensar nisso! — respondeu Ana Célia.

 

CAPÍTULO 2 – A BOLA DE CRISTAL

Ana estava sentada na sala de um sobrado majestosamente lindo, com um design interior que parecia ser tirado de um filme inspirado nas primeiras décadas do século XX.

Ela ficou olhando para aqueles móveis de linhas circulares estilizadas, com tons perolados e dourados típicos das ilustrações abstratas da arte oriental egípcia.

— A julgar pela sua casa você deve ser muito rica — disse Ana, não conseguindo esconder sua surpresa.

— Tenho o básico para viver— respondeu Dina. Essa casa é herança dos meus avós.

— Parabéns — elogiou Ana Célia. — Não é todo mundo que tem a sorte de receber uma herança.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou Dina. Tenho refrigerante, vinho e cerveja.

— Pode ser refrigerante.

Minutos depois elas estavam sentadas frente a frente e Ana pode sentir na alma o olhar penetrante de Dina. Parecia que ela procurava algo mais profundo do que os olhos podem ver.

— Diga uma coisa — perguntou Dina — você tem gatos?

— Sim, como você sabe?

— Eu vi… quero dizer, eu vejo algumas coisas, tenho uma pequena bola de cristal…

Ana Célia se mostrou admirada e ao mesmo tempo descrente:

— Você está brincando, não?

— É sério, venha aqui ver.

Elas subiram para o andar de cima e entraram em um cômodo muito agradável, onde a meia luz trazia ao ambiente um ar de mistério e charme.

O ambiente era simples, mas parecia despertar nas pessoas a experiência de ter seus cinco sentidos imediatamente acentuados e aguçados.

Em uma mesinha que estava num dos cantos do misterioso cômodo tinha uma bola de cristal de aproximadamente 80 milímetros, assentada sobre um suporte colorido muito bonito, com motivos orientais.

— Quer dizer que você é mística? — perguntou Ana Célia, curiosa diante daquele estranho objeto.

— Na verdade não sou mística, mas sim realista. Foi em busca da realidade que descobri que posso ver algumas coisas olhando para essa bola de cristal… Quer tentar?

Ana Célia ficou alguns instantes olhando para aquele objeto esférico e frio, mas não conseguiu ver nada.

Dina sorriu, dizendo:

— Talvez você não tenha o dom, mas não se preocupe, isso não vai lhe fazer falta na vida.

— Então foi assim que descobriu que eu tenho gatos? — perguntou Ana.

— Sim — respondeu Dina. — Eu gosto de exercitar meus “poderes”, mas por fim ontem eu vi algo que eu não gostei…

— O que você viu? — perguntou Ana.

— Eu vi você castigando uma de suas gatas. Elas são três, não? O que ela para merecer aquilo?

Ana estava admirada, afinal de contas Dina havia acertado a quantidade de felinos que ela tinha e o sexo deles. Aquilo era muito interessante, aliás, era impressionante!

— Bem, ela derrubou um copo de água na minha cabeça — disse Ana, rindo desse acontecimento.

— Mas onde estava o copo de água para que ela conseguisse derruba-lo na sua cabeça?

— No batente da janela, a minha cama fica encostada na parede.

— Mas, que mal lhe pergunte, ali é lugar de colocar copo de água? — perguntou Dina.

— Bem, não é, mas naquele dia eu havia colocado…

— Então você não pode culpar sua gata, afinal de contas foi você quem colocou o copo de água em lugar errado…

Ana Célia não gostou dessa observação. Dina continuou:

— Você permite que sua gata suba no batente da janela ou ela é proibida de ir até lá?

— Ela é livre para ir em qualquer lugar da casa…

— Então você deixou um copo de água na direção da sua cabeça em um lugar que sua gata nunca foi proibida de ir. É claro que o animal não tem coordenação suficiente para se desviar do copo e impedir esse acidente. Olha, amiga, sinto dizer, mas quem devia ser castigada é você e não a sua gata…

Ana ficou vermelha:

— Eu nunca tinha visto por esse lado. Na hora só pensei que a gata fez algo errado…

— Pois é — interrompeu Dina — nós sempre precisamos analisar direito os acontecimentos para saber com certeza quem está certo e quem está errado, ou o que causou determinado problema e como evita-lo no futuro.

 

CAPÍTULO 3 – DINA PROVA SEUS PODERES

Ana Célia foi embora pensando que havia conhecido a pessoa mais cara de pau da história da humanidade.

— Será que ela acha que eu acreditei nessa conversa de bola de cristal? É claro que é mentira dela. Preciso descobrir quem está passando informações da minha casa para ela.

Por isso, na próxima vez que encontrou Dina na escola, Ana falou:

— Arrumei mais uma gatinha, agora são quatro, precisa ver que linda!

Dina sabia que Ana iria tentar prova-la e respondeu:

— Normalmente animais de estimações imaginários são muito lindos mesmo.

— Como assim “imaginários”? É uma gatinha real.

— Se não é uma gatinha imaginária, então você resolveu se transformar numa mentirosa…

— Mentirosa é você, Dina! Você pensou que eu ia cair naquela história de bola de cristal?!! Pode me contar quem está passando informações para você.

— Vou te provar que não estou mentindo. Você não ficou sozinha por uma hora ontem à noite?

— Sim, meu marido precisou sair, quem te contou isso?

— Se você ficou sozinha, como alguém iria me contar o que você fez nesse período?

— Tá, e o que eu fiz?!

Após dizer essas palavras Ana ficou imediatamente vermelha. Sua reação seguinte foi ir para cima de Dina, tentando estapeá-la e puxar seus cabelos.

— Você colocou uma câmera na minha casa sua vadia!

— Em todos os cômodos? Vou te contar uma coisa: enquanto você estava em um quarto, uma das suas gatas estava dormindo em cima do guarda-roupas no outro quarto, outra gata estava dormindo em cima da mesa da cozinha e a outra estava no sofá da na sala. O seu cachorro mais velho estava solto no quintal, estraçalhando um saco de lixo que você deixou ao alcance dele, e o outro estava preso no canil, arrastando uma vasilha plástica que você deixou lá para ele fazer barulho com ela e perturbar os vizinhos.

Ana estava paralisada. Dina continuou:

— E tem mais: alguém tocou o interfone da sua casa, você não foi ver quem era e pensou que se fosse importante receberia uma mensagem no celular. Era apenas uma mulher pedindo ajuda financeira para comprar leite para seu filho de um ano, que aliás não existe, pois ela só teve uma filha que atualmente está presa no Paraná.

— Como você sabe que ela ia pedir isso, se eu não a atendi?

— Porque foi o que ela falou na casa anterior que passou e na seguinte também.

Ana estava sem palavras e Dina gostava de usar esses momentos para levar seu oponente ao nocaute:

— E aquele gato que pulou no telhado da sua garagem, que susto você levou! Era um gato preto e branco, primo em segundo grau de uma das suas gatinhas.

— Como você sabe disso?

— Devo ter visto na câmera que coloquei em cima da sua casa…

— Agora você está sendo irônica…

— A ironia em si não é ruim, desde que feita no momento certo e direcionada a quem precisa abrir os olhos para a verdade.

Ana não queria dizer que acreditava em Dina, seria muito humilhante para ela, por isso resolveu encenar mais um pouco:

— Vou pedir para o meu marido descobrir onde estão todas essas câmeras que você colocou lá, você vai ser desmascarada…

— Tudo bem, assim que encontrar as câmeras venha seguindo o fio que está ligado a elas, talvez você chegue na minha casa e podemos tomar um lanche juntas.

— Essas câmeras são conectadas na internet, acha que sou boba?

— Não acho que você é boba, tanto que tenho certeza que você conseguirá seguir o sinal de internet da sua casa até a minha, mesmo que ele passe por diversos provedores, inclusive nos Estados Unidos.

— Por favor, me diga como você faz isso, você usa microcâmeras? Onde elas estão?

— Já te mostrei como eu faço isso, Ana, é só você acreditar em mim. Seja como for vou te dar a prova final.

— Que prova?

— Bem, quando você veio para a escola hoje você passou em um banheiro público.

Ana expressou sua ansiedade com uma risada áspera:

— Você me seguiu?!

— É claro que não segui você, mas mesmo que tivesse seguido eu não conseguiria entrar no banheiro com você, só cabe uma pessoa naquele cubículo. Mas eu vi o que você fez lá dentro…

— E o que eu fiz?!

Ana ficou vermelha de novo, mas dessa vez não foi para cima de Dina. Ela simplesmente abaixou a cabeça e falou:

— Está bem, acredito em você…

 

CAPÍTULO 4 – O PRIMEIRO DESENTENDIMENTO

Ana Célia ficou bem intrigada com essa sua nova amiga. Ela parecia saber mais do que todo mundo na sala de aula, inclusive do que a própria professora. E, como se isso não bastasse, ainda conseguia ver coisas impossíveis às pessoas “normais” usando uma estranha bola de cristal.

Mas o que aconteceu é que para Ana as conversas com Dina passaram a ser mais importantes do que o próprio curso que ela estava fazendo.

Por esse motivo ela se sentiu bastante ansiosa antes de sua segunda visita à casa de Dina.

E a ansiedade se transformou em consternação quando Dina falou à queima roupa:

— Fiquei pensando na bagunça que aqueles dois cachorros fazem no seu quintal.

— Você andou olhando sua bola de cristal de novo?!

Dina pareceu pensar um pouco antes de responder:

— Sabe o que acontece, quando a gente treina muito nem sempre é necessário usar qualquer objeto para ver algumas coisas. Eu vi claramente seus dois cachorros. Vi também que seu marido parece não gostar deles.

— Sim, você acertou, ele gosta mais das gatinhas. Não sei porque, mas ele sempre mostrou não gostar muito de cachorros.

— Quando você soube disso, somente agora?

— Não, eu soube logo no começo do nosso relacionamento, ele diz que é porque os cachorros atrapalham muito o seu serviço, que é na rua…

Ana já havia visto aquela cara de reprovação no episódio da gata desastrada.

— Vou ser sincera com você, Ana, mas você parece que não pensa. Se você viu que seu marido não gosta de ter cachorros em casa, porque pegou esses dois? Você não perguntou a opinião dele antes?

— Não, simplesmente peguei os cachorros.

A hora da bronca havia chegado:

— Então você realmente não pensa direito. Como você ousa aborrecer o homem que você diz amar, fazendo coisas que ele não gosta? Além de ser uma forma de egoísmo muito feia essa de impor seu prazer e enfiar pela garganta abaixo do seu próximo aquilo que somente você deseja. Por que você age assim?

— Bem, ele tem que entender, eu sou mulher e…

— É mulher?! Ser mulher significa ser egoísta? Significa fazer o que quiser em detrimento das outras pessoas? Significa forçar seu marido a sentir o mal cheiro daquele “chiqueiro” que vocês têm no fundo do quintal?

— É que eu…

Dina continuou:

— Você não percebe o quanto esses cachorros causam transtornos tanto para vocês quanto para os seus vizinhos? Tem pessoas que estão tendo problemas de sono por causa deles, inclusive com crianças que têm dificuldade de dormir. Você sabia que muitas vezes os vizinhos já pensaram de denunciar vocês aos órgãos públicos devido ao mau cheiro e ao barulho dos seus cães?

— Mas, você não entende… eu amo esses cachorros…

— Ama?!! Você chama isso de amor? Seus cachorros vivem em um corredor de meio metro de largura, eles vivem a vida mais medíocre que um animal pode viver, sem felicidade, sem laser, sem divertimento, sem movimento…

— Mas eles não podem sair na rua, podem ser atropelados e…

— Não estou falando de deixa-los na rua, mas de doá-los para quem tem espaço suficiente para eles, com um grande quintal, na verdade o melhor seria eles viverem em um sítio ou fazenda. Isso sim seria ama-los de verdade.

— Ocorre que eu não consigo viver sem eles…

— Aí está seu egoísmo em ação novamente! Por não conseguir viver sem eles você os transformou em fantoches do seu bel prazer. Sabe para que eles vivem nesse mundo? Para satisfazer sua necessidade de vê-los nem que seja dez minutos por dia, mesmo que eles vivam estressados em sua sombria confinação…

Ana Célia não sabia o que falar:

— Mas o que você quer que faça?

— Você devia ter pensado nisso antes. Você não mora com alguém? Devia ter conversado com seu marido antes de levar esses animais para a sua casa. Sempre deve haver concordância mútua…

— Não é redundante falar “concordância mútua”?

— Pode ser, mas às vezes é necessário ser redundante para ver se de alguma forma conseguimos abrir os olhos de quem está cego pelo egoísmo…

— Eu não sou egoísta…

— É sim, Ana, sinto te dizer isso, mas essa foi uma das causas de eu ter me interessado por você: resolvi ajuda-la a vencer esse grande defeito do seu caráter…

— Então você me julgou assim que me viu, estava estampado na minha cara que eu sou egoísta e você pensou: preciso consertar essa maluca…

— Foi mais ou menos isso…

— Quer saber de uma coisa, eu vou embora e não volto mais aqui! Se eu desejasse ser julgada por alguém pediria para Deus me julgar e não você… Adeus… Ah, e por favor, não se sente mais ao meu lado no curso…

 

CAPÍTULO 5 – RECONCILIAÇÃO

Ana Célia não compareceu na escola por dois dias e Dina, sabendo disso, também não foi. Ela estava esperando o momento certo para continuar ensinando coisas importantes para Ana, afinal de contas foi por isso que ela veio para cá.

É isso que torna a nossa história particularmente interessante: não é todo dia que um anjo desce do céu para ensinar pessoalmente alguém aqui na terra.

O que aconteceu foi que Ana Célia chamou a atenção “dos céus” com sua ignorância mesclada de uma grande dose de ingenuidade. Alguma coisa precisava ser feita com urgência para consertar isso…

— Ela precisava da minha ajuda — murmurou Dina ao se lembrar dos preparativos para sua missão.

Quanto à Ana, ela pensou muito nesses dois dias que não foi no curso. Que pessoa petulante era aquela que ficava apontando seus erros e puxando sua orelha o tempo todo?

Mas o mais interessante é que Ana passou a sentir um certo fascínio por Dina, já que apesar de ela ser inconveniente, parecia ter alguma razão no que ela falava…

Por isso Ana ficou pensando:

— Pode ser que eu estivesse errada mesmo quando bati na gatinha… Pode ser que eu também estava errada quando levei aqueles cachorros para casa sem falar com meu marido…

Foi por pensar nessas coisas que ela resolveu voltar para o curso. E justamente no dia que ela voltou lá também estava Dina, só que sentada duas fileiras para trás do lugar de costume.

Ao vê-la Ana Célia foi se sentar ao lado dela.

— Você não disse para eu não me sentar ao seu lado? — perguntou Dina.

— Olha Dina, peço desculpas por ter surtado, todas aquelas broncas à queima roupa me fizeram perder o rumo da prosa. Mas pensei muito e talvez você tenha razão em algumas coisas…

— Talvez? Então você não pensou direito…

— Tudo bem… posso voltar a frequentar a sua casa? Vou aceitar seus conselhos, mas, por favor, pegue leve comigo!

— Pode sim — respondeu Dina, sorrindo. Se quiser vou fazer um bolo hoje à tarde ficarei feliz com a sua presença…

Nesse momento a professora entrou na sala de aula.

— Combinado — respondeu Ana.

 

CAPÍTULO 6 – O VERDADEIRO NOME DE DINA

Assim que começou a tomar o refrigerante Ana perguntou:

— Dina é seu nome verdadeiro ou é apelido?

— É meu apelido, meu nome verdadeiro é Naadiya, que significa mensageira…

— É um nome muito bonito, qual a origem dele?

— Há quem diga que sua origem é árabe, mas na verdade esse nome tem origem celestial…

— Tá bom, quer dizer que você é um anjo que caiu do céu? Por isso tem esses poderes…

Dina quase corou. Ela nunca havia pensado o que um anjo sentiria ao ser descoberto. Mas ela soube disfarçar bem.

— Sim, sou um anjo, mas não caí do céu, desci numa carruagem de fogo — disse ela sorrindo.

Dina queria entrar num ponto muito importante da vida de Ana:

— Como você conheceu seu marido?

— Foi pela Internet — respondeu Ana Célia, sentindo-se meio envergonhada.

— Que legal, ainda bem que temos a tecnologia nos ajudando a encontrar nossos pares atualmente… Foi amor à primeira teclada?

— Sim, eu me apaixonei por ele no primeiro dia que conversamos, mesmo sem conhece-lo pessoalmente. Foi a coisa mais incrível do mundo, parece que era para ser…

Dina já sabia toda a história, mas precisava ouvir da boca de Ana para poder começar sua bronca:

— Conte-me tudo, gosto de histórias de amor.

— Posso falar sobre isso outro dia? — perguntou Ana — Estou me sentindo meio indisposta hoje.

— Tudo bem — respondeu Dina. Sobre o que você quer falar então?

— Gosto muito de música e…

— Ah, sim, eu vi o quanto você gosta de música, tanto que de manhã você vai ouvindo música no carro quando seu marido a leva para o trabalho. Você já pensou em comprar um fone de ouvido?

— Por que? É importante ele ouvir música também…

— Você não percebeu que ele não gosta?

— Se ele não gostasse ele diria…

— Ele não fala nada para não deixar você nervosa e triste, mas tem certas músicas que você “adora” que para ele é uma verdadeira tortura…

— Mesmo? Você viu isso na bola de cristal?

— Eu vi que mesmo se tratando de músicas que ambos gostam, elas devem ser ouvidas quando ambos estão com vontade de ouvi-las e não quando somente um está querendo.

Ana não sabia o que dizer. Dina continuou:

— Depois, tem algumas músicas que você gosta que, sinceramente, você não percebe o quanto são ruins?

— Não diga isso, eu só gosto de boa música…

— Músicas com letras ruins, falando besteiras sobre a vida, filosofias tolas e frases desconexas são “boa música” para você?

— De qual música em particular você está falando?

— De muitas músicas que você ouve. Além das letras comerciais e de má qualidade, ainda tem as semitonadas dos seus cantores prediletos. Você pode não perceber, mas seu marido percebe todas…

— Eu não percebo semitonada nenhuma… De quais cantores você está falando?

— Não vou citar nomes… Por que você não começa a perguntar o que ele acha de cada música que você gosta de ouvir?

— Mas eu não posso ouvir só o que ele gosta e aprova… Tenho meus gostos também…

— Sim, mas eu tenho certeza que ele vai apenas fazer uma análise da música. A partir daí você decide se quer continuar ouvindo-a ou não.

— Você acha que se ele falar mal de certa música eu vou querer continuar ouvindo-a?

— Você não está entendendo bem o que eu estou falando… Dei essa ideia para que você aprenda a pensar. Depois de algumas análises feitas por ele você começará a entender melhor quando uma música não merece ser ouvida.

Ana interrompeu bruscamente:

— Você o conhece tão bem assim? De onde tirou a ideia de que ele é um exemplo de perfeição no mundo?

— Ele não é exemplo de perfeição, aliás ainda está longe disso. Mas ele tem um bom senso interessante, algo que falta a você.

Ana teve vontade de ir embora de novo. Mas ela ficou em dúvida se devia fazer isso, se fizesse não voltaria ali nunca mais. Por isso pensou melhor e ficou.

Dina procurou se desculpar:

— Querida, não me leve a mal, estou falando isso para o seu bem, você tem muito que melhorar para chegar ao nível mínimo aceitável para um ser humano.

A emenda saiu pior que o soneto. Ana saiu batendo a porta e resmungando coisas referentes aos órgãos excretores e reprodutores de ambos os sexos.

 

CAPÍTULO 7 – A PROVA SURPRESA

Dessa vez Ana Célia faltou três dias na aula. Dina também não foi nesses dias.

Quando retornaram a professora Claudete não estava num bom dia. Isso ficou claro porque seus cabelos estavam ainda piores do que o normal, parecia que não eram penteados há meses, ao mesmo tempo em que ela apresentava uma carranca que acrescentava pelo menos dez anos ao seu rosto já bem enrugado.

— Vou fazer uma prova surpresa agora, quem tirar menos que 5 estará antecipadamente reprovado nesse curso!

Todos os alunos se olharam, assustados. Mas só Dina teve coragem de levantar a mão para falar alguma coisa:

— A senhora perguntou para a diretora da escola se pode fazer isso? Que eu saiba todos nós estamos pagando por esse curso e ser reprovado não constava nem nas letras miúdas do contrato que assinamos.

A professora olhou para ela com fogo nos olhos:

—  Você vive me contradizendo. Eu não preciso pedir nada para a diretora, mesmo porque meu salário está atrasado e…

— E a senhora quer descontar em nós… — interrompeu Dina.

A professora levantou rapidamente da sua cadeira, fazendo esvoaçar seus cabelos que mais pareciam uma medonha peruca de arame farpado.

— Não é isso, preciso avaliar os meus alunos, é uma coisa natural em qualquer curso.

Dina continuou:

— Então, professora, eu sugiro que a senhora nos dê a prova surpresa sim, pode ser bom para nos avaliar, mas esqueça a parte da reprovação automática.

Nesse momento a professora perdeu as estribeiras e caminhou até onde Dina estava.

No auge de sua feiura, Claudete ela era muito maior do que Dina e estava fazendo tudo que podia para que todos notassem isso.

 — Você vai aprender a me respeitar — disse ela.

E antes que Dina pudesse falar alguma coisa deferiu-lhe um forte tapa no rosto.

Mas foi como se tivesse dado um tapa numa coluna de concreto, o que resultou numa fratura exposta em sua mão.

 

CAPÍTULO 8 – EGOÍSMO

Na saída da escola, depois que a ambulância levou a professora para o hospital, Ana perguntou:

— O que foi aquilo?

Dina olhou para Ana e, com ar de surpresa, falou:

— Eu que tenho que perguntar: o que foi aquilo?

— Aquilo o que?!! — perguntou Ana, mais surpresa ainda.

— Você falou abertamente para o seu marido que não gosta do filho dele. Apesar de que não seria preciso dizer, suas atitudes já demonstram isso…

— Eu não suporto aquele vagabundo e…

— Opa, espere um pouco, você realmente acha que está certa?

— Não sei se estou certa ou errada, mas a verdade é que…

— A verdade é que você é egoísta e quer o seu marido, a casa e tudo mais existindo só para agradar você.

— Não é assim, é que preciso ter o meu espaço…

— Mesmo que seja às custas das pessoas dormirem na rua? Sua irmã, seu enteado, seja quem for, todo mundo que precisa de você tem que se afastar para você ter o seu espaço sagrado… Bem interessante sua filosofia de vida. Sabia que os serem humanos vivem em sociedade?

— Eu não estou gostando dessa conversa… Não quero mais falar disso…

— E você quer falar sobre o que? Sobre música? Vou te contar uma coisa… É por esse motivo que seu marido não quer mais nem ouvir falar de música…

— Por esse motivo? Como assim?

— Você não tem capacidade de observação e dedução? Pare para pensar… Ele vê você falando que ama música, que a música é a sua vida, vê você cantando, ouvindo música de manhã até a noite, fazendo curso de canto, etc.

— Sim, e daí?

— Daí que ele viu que a música não muda as pessoas. Ele viu que você gosta exageradamente de música, mas isso não faz de você uma pessoa melhor, você continua sendo egoísta, cada dia mais odiosa, cada dia menos bondosa, nenhum um pouco piedosa, fala mal de todo mundo e…

— Fui…

 

CAPÍTULO 9 – DEPRESSÃO

Ana Célia já estava acostumada com as broncas de Dina e as intromissões dela em sua vida. Mesmo assim ela se sentia atraída por Dina e isso talvez tivesse um motivo: ela parecia ter sempre razão, apesar de ser difícil admitir.

Por esse motivo Ana começou a levar na brincadeira a maioria das broncas de Dina, mesmo que depois, sozinha em sua casa, pensasse seriamente no que ela falou.

Então dessa vez, quando chegou na casa de Dina ela foi logo perguntando:

— Boa tarde amiga! Qual é a bronca do dia?

— Boa tarde Ana. Não sei se podemos chamar de bronca, mas quero te falar uma coisa hoje.

Após servir um copo de refrigerante, Dina falou:

— Como você quer ser lembrada depois que for embora desse mundo?

— Como assim?

— Eu vou ter que falar uma coisa: pelo que tenho visto, se você partir para a eternidade no dia de hoje as pessoas vão dar graças a Deus…

— Sério? Você pensa isso de mim? Eu sou tão má assim?

— Não é questão de ser má, apesar que muitas vezes você é má sim, mas é questão de não fazer nada para que as pessoas gostem de estar com você.

— Eu tenho que viver tentando agradar as pessoas então? Não vou agradar gente falsa, vagabundos…

— Seria bom se você fizesse isso naturalmente, se você existisse como alguém que faz bem para as pessoas. Mas você está sempre nervosa, irritada, falando palavrões, sendo irônica. Vou te falar uma coisa…

— Solta a pérola…

— Tentei ver se pelo menos uma das pessoas do seu convívio iria sofrer com a sua partida, mas você conseguiu uma façanha interessante: Ninguém! Nenhuma das pessoas com quem você convive de perto vão sofrer, mas vão dar graças a Deus pela libertação…

— Você está sendo injusta, Dina, tem muita gente que gosta de mim sim senhora!

— Sim, gostam, querem o seu bem, mas sofrem com a sua presença. Você é chata demais, minha amiga, grosseira demais, sem educação, fala o que quer quando quer, não pensa nas consequências das suas palavras, dos seus gestos, dos seus olhares impacientes e, principalmente, das suas ironias mal colocadas e sem sentido…

— Você está passando dos limites, Dina. Eu…

— Você tem que me ouvir e começar a pensar no que tem feito. Uma ironia bem colocada, no momento certo, pode ser útil para abrir os olhos de quem está fazendo coisas erradas. Mas ironias lançadas a esmo o tempo todo fazem de você uma pessoa chata e inconveniente…

— As pessoas têm que me dar um desconto, eu tenho sofrido de depressão, você sabe que tomo remédio tarja preta?

Dina não poderia deixar de aproveitar a ocasião:

— Sim, eu sei, mas vou te dizer uma coisa que talvez você nunca tenha ouvido nesse mundo…

— Outra pérola — disse Ana, sendo irônica mais uma vez.

— Muitas pessoas sentem depressão neste século devido ao seu egoísmo.

— Egoísmo? Você associa depressão a egoísmo? Agora você foi longe demais…

— Muitas vezes é devido ao egoísmo pelo seguinte fato: se a pessoa pensasse mais no próximo, se preocupasse com quem está passando necessidade ao seu redor, na sua família, no seu círculo de conhecidos, no seu bairro, na sua cidade, não teria tempo para ficar depressiva. Digo “tempo” entre aspas, vou tentar explicar melhor.

— Sim, explique melhor, porque dessa vez você viajou…

— Se você amar as pessoas ao seu redor, se preocupar com elas e desejar realmente ajuda-las, com amor e não com julgamentos, sua depressão desaparecerá como que por milagre…

— Não consigo fazer isso, não suporto pessoas que fazem coisas erradas…

— Todas as pessoas fazem coisas erradas, inclusive você.

— Acho que por isso nem eu me suporto…

— Exatamente, imagine as outras pessoas. Por isso, aconselho você a pedir uma coisa a Deus: amor no coração! Amor pelas pessoas, independente dos seus erros. Se Deus amasse só quem é perfeito aqui na terra ele não amaria ninguém. Mas Ele ama a todos, independente dos nossos erros.

— Você é pastora? Qual a sua religião?

— Minha religião é o amor, sinto amor pelas pessoas e tento ajuda-las.

Ana pensou um pouco para falar:

— Nunca vi você ajudando ninguém…

— E por que você acha que estamos conversando?

 

CAPÍTULO 10 – MULETA

 Ao saírem da aula que precedia o final de semana, Ana confessou a Dina que não estava bem, era como se seu mundo interior houvesse ruído.

Dina perguntou o que ela tinha feito nos últimos dias, com o que preenchia os seus dias e os seus pensamentos, já que não estar bem podia ser resultado de suas próprias atitudes.

Mas Ana Célia disse que o que ela mais vinha fazendo na vida era ouvir músicas e ensaiar para fazer gravações.

Dina respondeu:

— A música é muito boa, faz bem para o coração e para a alma, mas como tudo que existe nesse mundo tem que ser bem dosado.

— Como assim? — perguntou Ana.

— Você deve gostar de música sim, mas deve coloca-la no lugar dela, não pense que a música tem algum poder mágico na vida das pessoas.

— Não estou entendendo…

— Ana, ninguém se torna uma pessoa melhor por se envolver com música, nenhum roqueiro, metaleiro, funkeiro, sertanejo, etc., abandonou seus erros e pecados por causa da música. Muitas vezes o envolvimento ativo no meio musical até serviu para aumentar esses problemas. Você já não ouviu falar de tanta gente que morre devido ao uso de drogas e depressão no meio musical?

— Você está falando bobagens, Dina, a música é uma coisa boa, você está fazendo parecer que ela não presta. Você parece estar do lado do mal…

— A verdade às vezes parece o mal, por isso crucificaram Jesus, por falar a verdade. Ocorre que nunca ninguém falou essas verdades para você, então parecem loucuras.

— Você está me deixando pior ainda…

— Isso acontece porque você não está querendo entender, está fugindo da verdade. A música é boa sim, eu já falei isso, mas eu a trato como ela merece, não com essa importância toda que você dá a ela. Na verdade, a música, como conhecemos na terra, é um conjunto de sons orquestrados com ritmo e letra, onde se passa uma mensagem. É importante também verificar as mensagens que essas letras passam, para não ficar repetindo e divulgando asneiras.

— Isso tudo que você falou realmente é a maior loucura que já ouvi na vida.

— Sim, para você deve ser mesmo, porque você já tem uma ideia preconcebida com relação à música. Meu maior medo é que você a use como muleta ou como fuga para os dissabores da vida, aí ela pode virar um vício, e vícios sempre fazem mal, nunca bem.

Ana Célia não entendeu o que Dina estava tentando dizer, ou não quis entender. A verdade é que ela foi embora ainda pior do que estava.

Dina percebeu isso, mas não se sentiu mal, tinha falado a verdade, e, segundo ela, a verdade tem que sempre ser dita, doa a quem doer.

 

CAPÍTULO 11 – ESPERDÍCIO EXPLÍCITO

Na segunda-feira Ana Célia apareceu de manhã na casa de Dina. Parecia estar um pouco melhor.

— Você pensou em tudo que eu falei? — perguntou Dina, sorrindo.

— Não quero falar de música…

Dina já sabia que Ana não tinha dado importância alguma ao que ela falou.

— Tudo bem. E o que a traz aqui tão cedo?

— Nada de mais, acordei, tomei um banho e resolvi caminhar um pouco…

Dina não podia perder a oportunidade.

Por falar em tomar banho, acho muito legal você contribuir nas finanças da casa pagando a água e a luz.

— Mas eu não pago nada, é meu marido quem paga.

— O que?!

Dina estava fingindo que estava surpresa, para que a sua bronca surtisse efeito.

— Quer dizer que não é você quem paga a água e a luz? Então você está no mínimo roubando seu marido!

— Como assim, nunca roubei ninguém…

— Você entra no banheiro, liga o chuveiro numa temperatura alta, que consome ainda mais energia, e vai para o vaso sanitário fazer suas necessidades, deixando o chuveiro ligado. Hoje marquei 8 minutos de consumo desnecessário.

— Eu… é que…

— Eu pensei que você fizesse isso porque você paga a água e a luz. Mas se não é, então você está prejudicando financeiramente seu marido de maneira muito onerosa. Você sabe quanto ele vai ter que pagar a mais de água e luz por você fazer isso todos os dias? Lembre-se que às vezes você toma dois ou três banhos no mesmo dia.

— Eu não sabia que gastava tanto…

— É claro que gasta, mas mesmo que não fosse tanto, fosse quanto fosse, você está jogando o dinheiro dele no ralo, o que para mim equivale a roubo, você não tem consciência disso?

— Nossa, calma, não é tanto assim….

— É tanto assim e mais ainda. E depois você vem me falar de música, que ama a música. Vai entender a vida primeiro. Vai se tornar gente primeiro, depois pense em amar alguma coisa…

— Você está me ofendendo, Dina.

— Pode ser que esteja mesmo e você merece. Não quero mais falar com você hoje, estou cansada das suas ignorâncias e maldades. Preciso ir no shopping center e você não está convidada a ir comigo.

— Eu não sabia que você era tão grossa assim — disse Ana triste.

Dina realmente perdeu as estribeiras. Não era possível entender como alguém pode viver tão distante da realidade, jogando no esgoto algo que é crucial na vida: o dinheiro.

E mais uma vez Ana se sentiu oprimida e depressiva. Mas pelo menos ela começou a pensar em coisas que, para a sua vida, seriam mais úteis do que a música.

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