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TUDO SOBRE O MUNDO DIGITAL

Cursos, concursos, artigos, informações, etc.

Naadiya

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CAPÍTULO 1 – O CURSO DE GASTRONOMIA

Ana Célia estava muito ansiosa, pois era o primeiro dia de aula de um novo curso.

O prédio da escola era simples, mas confortável e aconchegante.

Na grande sala de aula as carteiras eram cuidadosamente ordenadas em cinco fileiras, de onde se podia ver o quadro negro ocupando praticamente toda a extensão da parede frontal, enquanto a mesa do professor, embora antiga, destacava-se num ambiente construído alguns centímetros acima do nível do piso da sala.

Ana deixava seus pensamentos divagarem livremente enquanto aguardava o início daquela nova jornada de aprendizado.

Será que ela iria conhecer pessoas interessantes e simpáticas, será que iria gostar das aulas, dos colegas e dos professores?

Ana sentou-se ao lado de uma moça muito bonita e bem vestida, que usava um perfume muito agradável e trazia no rosto aquele olhar típico das mulheres de personalidade forte e marcante.

— Muito prazer, meu nome é Dina!

— O prazer é todo meu, meu nome é Ana Célia…

Dina era uma mulher bonita, doce e inteligente. Bastaria olhar para ela por alguns segundos para perceber que se trata de alguém que sabe se manter no controle da situação.

Depois de se olharem por alguns segundos, Ana perguntou:

— Será que vamos aprender coisas interessantes nesse curso de gastronomia?

Dina sorriu ao responder:

— Espero que sim, senão vou querer meu dinheiro de volta…

Elas estavam rindo quando a professora entrou na sala. Era uma senhora que estava entre seus quarenta e cinquenta anos, que chamava a atenção devidos aos seus cabelos encaracolados e loiros muito maltratados pelo tempo.

Seus gestos denotavam uma certa insegurança e seu semblante deixava claro que estava ali uma mulher que pretendia ser austera, sem convencer ninguém de que tinha motivo para isso.

Após se apresentar como “professora Claudete”, ela começou a falar da história da arte da confeitaria profissional no mundo.

Em dado instante, talvez para expor as diferentes espécies de animais usados na culinária moderna, Claudete resolveu expor sua crença na teoria da evolução de Darwin.

Ana Célia notou que Dina não estava gostando nada daquilo, porque ela balançava a cabeça de vez em quando, até que em dado momento ela levantou a mão, solicitando a palavra:

— Professora, eu poderia aceitar a teoria que a senhora está nos apresentando se alguém me explicasse como muitas espécies de animais e plantas da Terra surgiram “do nada”, pois não tiveram antepassados dos quais possam ter evoluído e a ciência nunca soube explicar de onde elas vieram.

O semblante da professora mudou imediatamente, deixando claro que ela não gostou nada do que ouviu.

Dina continuou:

— Por exemplo, a senhora pode me explicar como os peixes se transformaram em anfíbios? Onde estão os elos necessários para provar isso?

A professora ficou paralisada, ficou claro que ela não sabia o que falar. Dina aproveitou para continuar:

— A senhora notou também que os animais terrestres antigos, que são conhecidos na atualidade, sempre “apareceram” na história da terra com membros e cabeças bem definidos? Não tem nada que nos faça pensar que um animal se “transformou” em outro…

A professora começou a gaguejar:

— Olha, eu… sabe o que é…

Dina não deixou a professora delinear ideia alguma e prosseguiu:

— A senhora já pensou também que após o cataclisma que extinguiu os dinossauros, surgiram diversos grupos de mamíferos ao mesmo tempo e todos muito bem definidos?

A professora procurou esconder sua irritação:

— Vamos fazer assim, depois da aula a gente conversa sobre isso, não podemos discutir esse assunto aqui, desse jeito não vou ter tempo de concluir a matéria dessa primeira aula…

— Desculpe, professora — interrompeu Dina —eu tenho um compromisso inadiável com a minha colega Ana Célia logo após a aula. Mas podemos conversar outro dia.

Percebendo que Ana Célia não tinha entendido nada, Dina sussurrou para ela:

— Depois da aula quero conversar com você!

Ana assentiu com a cabeça, mas ficou pensativa. O que será que Dina queria falar com ela, já que mal haviam se conhecido?

A aula continuou sem grandes novidades, a não ser que Dina corrigiu a professora mais duas ou três vezes.

Na saída Ana Célia perguntou:

— Como você sabia aquelas coisas que nem a professora sabia?

— Gosto muito de estudar e, principalmente, de pensar…

— Preciso perguntar se você não é…

A pergunta de Ana não deixou Dina embaraçada.

— De jeito nenhum, não gosto de mulher, pode ficar tranquila quanto a isso…

— Estou perguntando porque hoje em dia está difícil… além disso sou casada e muito bem casada.

— Que bom! — exclamou Dina. Conte-me alguma coisa sobre seu marido, sobre sua vida, afinal de contas vamos ser amigas.

— Bem, eu e meu marido vivemos bem, ou mais ou menos bem, temos umas brigas às vezes, mas…

— Não entendo isso de “ter umas brigas” — interrompeu Dina. Briga é coisa de quem não se gosta, quem briga é inimigo. Sempre pensei que duas pessoas que se gostam devem se ajudar mutuamente e deixar as brigas para aqueles que se odeiam.

— São brigas normais de casal, disse Ana Célia.

— Minha querida, não existe briga normal. Brigar nunca é normal, normal é conversar e se entender, mesmo que um não concorde com o outro.

— Mas as coisas não funcionam assim! De que planeta você veio? Você nunca teve um relacionamento?

— Só posso dizer que nunca briguei. Quando alguém quer brigar comigo eu o deixo brigar sozinho. Mas me diga uma coisa, se você briga com ele não é melhor terminar o relacionamento?

— Eu não quero terminar com ele, preciso dele e…

— Por que você não quer terminar se briga com ele?

— Bem, a minha vida era vazia antes de conhece-lo e sinto que não consigo mais viver sem ele…

— Mas a sua vida melhorou desde que vocês estão juntos?

— Melhorou em alguns aspectos, mas não em outros.

— É bem confuso isso…

Dina olhou para Ana como quem fosse fazer uma revelação:

— Olha, eu fiz um curso de Psicologia e depois de terminar esse curso que estamos fazendo vou começar um mestrado nessa área. Quero convida-la a vir em casa para conversarmos mais, estou querendo delinear a minha tese para o mestrado e você é a pessoa ideal para me ajudar.

— Quer me usar como cobaia?

Dina sorriu e respondeu:

— Não é isso, está interpretando de modo errado…

— Tudo bem, é só me dar seu endereço que eu vou…

Depois de passar seu endereço e marcar o horário da visita para o dia seguinte, Dina falou:

— Não se esqueça, briga é coisa de inimigos, quem se gosta conversa, compreende, ajuda…

— Ok, vou pensar nisso! — respondeu Ana Célia.

CAPÍTULO 2 – A BOLA DE CRISTAL

Ana estava sentada na sala de um sobrado majestosamente lindo, com um design interior que parecia ser tirado de um filme inspirado nas primeiras décadas do século XX.

Ela ficou olhando para aqueles móveis de linhas circulares estilizadas, com tons perolados e dourados típicos das ilustrações abstratas da arte oriental egípcia.

— A julgar pela sua casa você deve ser muito rica — disse Ana, não conseguindo esconder sua surpresa.

— Tenho o básico para viver— respondeu Dina. Essa casa é herança e…

— Parabéns — interrompeu Ana. — Não é todo mundo que tem a sorte de receber uma herança.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou Dina.  Tenho refrigerante, vinho e cerveja.

— Pode ser refrigerante…

Minutos depois elas estavam sentadas frente a frente e Ana sentiu na alma o olhar penetrante de Dina. Parecia que ela procurava algo mais profundo que aquilo que os olhos podem ver.

— Diga uma coisa — pediu Dina. — Você tem gatos?

— Sim, como você sabe?

— Eu vi… quero dizer, eu vejo algumas coisas, tenho uma pequena bola de cristal…

Ana Célia se mostrou admirada e ao mesmo tempo descrente:

— Você está brincando, não?

— É sério, venha aqui ver.

Elas subiram para o andar de cima e entraram em um cômodo muito agradável, onde a meia luz trazia ao ambiente um ar de mistério e charme.

O ambiente era simples, mas parecia despertar nas pessoas a experiência de ter seus cinco sentidos imediatamente acentuados e aguçados.

Em uma mesinha que estava num dos cantos do misterioso cômodo tinha uma bola de cristal de aproximadamente 80 milímetros, assentada sobre um suporte colorido muito bonito, com motivos orientais.

— Quer dizer que você é mística? — perguntou Ana Célia, curiosa diante daquele estranho objeto.

— Na verdade não sou mística, mas sim realista. Foi em busca da realidade que descobri que posso ver algumas coisas olhando para essa bola de cristal… Quer tentar?

Ana ficou alguns instantes olhando para aquele objeto esférico e frio, mas não conseguiu ver nada.

Dina sorriu, dizendo:

— Talvez você não tenha o dom, mas não se preocupe, isso não vai lhe fazer falta na vida.

— Então foi assim que descobriu que eu tenho gatos? — perguntou Ana.

— Sim — respondeu Dina. — Eu gosto de exercitar meus “poderes”, mas por fim ontem eu vi algo que eu não gostei…

— O que você viu? — perguntou Ana.

— Eu vi você castigando uma de suas gatas. Elas são três, não? O que ela fez para merecer aquilo?

Ana estava admirada, afinal de contas Dina havia acertado a quantidade de felinos que ela tinha e o sexo deles. Aquilo era muito interessante, aliás, era impressionante!

— Bem, ela derrubou um copo de água na minha cabeça — disse Ana, rindo desse acontecimento.

— Mas onde estava o copo de água para que ela conseguisse derruba-lo na sua cabeça?

— No batente da janela, a minha cama fica encostada na parede.

— Mas… ali é lugar de colocar copo de água? — perguntou Dina.

— Bem, não é, mas naquele dia eu havia colocado…

— Então você não pode culpar sua gata, afinal de contas foi você quem colocou o copo de água em lugar errado…

Ana Célia não gostou dessa observação. Dina continuou:

— Você permite que sua gata suba no batente da janela ou ela é proibida de ir até lá?

— Ela é livre para ir em qualquer lugar da casa…

— Então você deixou um copo de água na direção da sua cabeça em um lugar que sua gata nunca foi proibida de ir. É claro que o animal não tem coordenação suficiente para se desviar do copo e impedir esse acidente. Olha, amiga, sinto dizer, mas quem devia ser castigada é você e não a sua gata…

Ana ficou vermelha:

— Eu nunca tinha visto por esse lado. Na hora só pensei que a gata fez algo errado…

— Pois é — interrompeu Dina — nós sempre precisamos analisar direito os acontecimentos para saber com certeza quem está certo e quem está errado, ou o que causou determinado problema e como evita-lo no futuro.

CAPÍTULO 3 – DINA PROVA SEUS PODERES

Ana Célia foi embora pensando que havia conhecido a pessoa mais cara de pau da história da humanidade.

— Será que ela acha que eu acreditei nessa conversa de bola de cristal? É claro que é mentira dela. Preciso descobrir quem está passando informações da minha casa para ela.

Por isso, na próxima vez que encontrou Dina na escola, Ana falou:

— Arrumei mais uma gatinha, agora são quatro, precisa ver que linda!

Dina sabia que Ana iria tentar prova-la e respondeu:

— Normalmente animais de estimações imaginários são muito lindos mesmo.

— Como assim “imaginários”? É uma gatinha real.

— Se não é uma gatinha imaginária, então você resolveu se transformar numa mentirosa…

— Mentirosa é você, Dina! Você pensou que eu ia cair naquela história de bola de cristal?!! Pode me contar quem está passando informações para você.

— Vou te provar que não estou mentindo. Você não ficou sozinha por uma hora ontem à noite?

— Sim, meu marido precisou sair, quem te contou isso?

— Se você ficou sozinha, como alguém iria me contar o que você fez nesse período?

— Tá, e o que eu fiz?!

Após dizer essas palavras Ana ficou imediatamente vermelha. Sua reação seguinte foi ir para cima de Dina, tentando estapeá-la e puxar seus cabelos.

Na verdade Ana ouviu telepaticamente de Dina o que ela tinha feito. Isso a deixou totalmente irada.

— Você colocou uma câmera na minha casa sua vadia!

— Em todos os cômodos? Vou te contar uma coisa: enquanto você estava em um quarto, uma das suas gatas estava dormindo em cima do guarda-roupas no outro quarto, outra gata estava dormindo em cima da mesa da cozinha e a outra estava no sofá da na sala. O seu cachorro mais velho estava solto no quintal, estraçalhando um saco de lixo que você deixou ao alcance dele, e o outro estava preso no canil, arrastando uma vasilha plástica que você deixou lá para ele fazer bastante barulho.

Ana estava paralisada. Dina continuou:

— E tem mais: alguém tocou o interfone da sua casa, você não foi ver quem era e pensou que se fosse importante receberia uma mensagem ou ligação no celular. Era apenas uma mulher pedindo ajuda financeira para comprar leite para seu filho de um ano, filho esse que aliás não existe, pois ela só teve uma filha que atualmente está presa no Paraná.

— Como você sabe que ela ia falar isso, se eu não a atendi?

— Porque foi o que ela falou na casa anterior onde passou e na seguinte também.

Ana estava sem palavras e Dina gostava de usar esses momentos para levar seu oponente ao nocaute:

— E aquele gato que pulou no telhado da sua garagem, que susto você levou! Era um gato preto e branco, primo em segundo grau de uma das suas gatinhas.

— Como você sabe disso?

— Devo ter visto na câmera que coloquei em cima da sua casa…

— Agora você está sendo irônica…

— A ironia em si não é ruim, desde que feita no momento certo e direcionada a quem precisa abrir os olhos para a verdade.

Ana não queria dizer que acreditava em Dina, seria muito humilhante para ela, por isso resolveu encenar mais um pouco:

— Vou pedir para o meu marido descobrir onde estão todas essas câmeras que você colocou lá, você vai ser desmascarada…

— Tudo bem, assim que encontrar as câmeras venha seguindo o fio que está ligado a elas, talvez você chegue na minha casa.

— Essas câmeras são conectadas na internet, acha que sou boba?

— Não acho que você é boba, tanto que tenho certeza que você conseguirá seguir o sinal de internet da sua casa até a minha, mesmo que ele use diversos provedores, inclusive através dos cabos transoceânicos que passam por vários continentes.

— Por favor, me diga como você faz isso, você usa microcâmeras? Onde elas estão?

— Já te mostrei como eu faço isso, Ana, é só você acreditar em mim. Seja como for vou te dar a prova final.

— Que prova?

— Bem, quando você veio para a escola hoje você passou em um banheiro público.

Ana expressou sua ansiedade com uma risada áspera:

— Você me seguiu?!

— É claro que não segui você, mas mesmo que tivesse seguido eu não conseguiria entrar no banheiro com você, só cabe uma pessoa naquele cubículo. Mas eu vi o que você fez lá dentro…

— E o que eu fiz?!

Ana ficou vermelha de novo, mas dessa vez não foi para cima de Dina, ela simplesmente abaixou a cabeça e falou:

— Está bem, eu acredito em você…

CAPÍTULO 4 – CONCORDÂNCIA MÚTUA

Ana ficou bem intrigada com essa sua nova amiga. Ela parecia saber mais do que todo mundo na sala de aula, inclusive do que a própria professora. E, como se isso não bastasse, ainda conseguia ver coisas impossíveis às pessoas “normais” usando uma estranha bola de cristal.

Mas o que aconteceu é que para Ana as conversas com Dina passaram a ser mais importantes do que o próprio curso que estava fazendo.

Por esse motivo ela se sentiu bastante ansiosa antes de sua segunda visita à casa de Dina. E a ansiedade se transformou em consternação quando Dina falou à queima roupa:

— Fiquei pensando no transtorno que aqueles cachorros causam na sua casa.

— Você andou olhando sua bola de cristal de novo?!

Dina pareceu pensar um pouco antes de responder:

— Eu vi que seu marido parece não gostar muito dos latidos deles.

— Sim, você acertou, ele prefere não ter cachorros em casa.

Ana já havia visto aquela cara de reprovação no episódio da gata desastrada.

— Vou ser sincera com você, Ana, mas se você viu que seu marido não gosta de ter cachorros em casa, porque pegou esses dois? Você não pediu a opinião dele antes?

— Não, simplesmente peguei os cachorros.

A hora da bronca havia chegado:

— É uma forma de egoísmo muito feia essa de impor sua vontade e enfiar garganta abaixo das pessoas aquilo que somente você deseja. Por que você age assim?

— Bem, as pessoas têm que entender, eu gosto de cachorros e…

— Gostar de cachorros te autoriza a ser egoísta? Significa fazer o que quiser em detrimento das demais pessoas?

— Mas Dina, eu não vivo sem os meus bichinhos…

Dina continuou:

— Você não percebe o quanto esses cachorros causam transtornos tanto para vocês quanto para os seus vizinhos? Tem pessoas que estão tendo problemas de sono por causa deles. Você sabia que tem vizinhos pensando seriamente em denunciar vocês aos órgãos públicos devido ao barulho dos seus cães?

— Eu não posso fazer nada, eu amo esses cachorros  respondeu Ana.

Dina não podia acreditar no que estava ouvindo.

— Você chama isso de amor? Seus cachorros vivem em um corredor de meio metro de largura, eles vivem a vida mais medíocre que um animal pode viver, sem felicidade, sem lazer, sem divertimento, sem movimento…

— Mas eu os solto no quintal às vezes. Eles não podem sair na rua, pois podem ser atropelados.

— Não estou falando de solta-los na rua, mas de doá-los para quem tem espaço suficiente para eles. Seria melhor eles viverem em um sítio ou uma fazenda. Arrumar um lugar assim para eles seria ama-los de verdade.

— É difícil para você entender que eu não consigo viver sem eles?

— Isso é egoísmo em ação! Por não conseguir viver sem eles você os transformou em fantoches do seu bel prazer. Sabe para que eles existem nesse mundo? Para satisfazer sua necessidade de vê-los alguns minutos por dia, mesmo que eles vivam estressados e deprimidos em sua sombria confinação.

Ana não sabia o que falar. Dina continuou:

— Você acha certo um homem prender uma mulher numa jaula sem deixa-la sair? E quanto alguém recrimina-lo por isso dizer simplesmente: Mas eu a amo!

—  Isso é bem diferente…

—  Não é diferente… E digo mais: quer dizer que se você amar um rinoceronte ou uma cobra vai leva-los para casa também?

— Chega, cansei desse assunto. Eles estão lá e não tem o que fazer agora.

— Está certo. Vamos encerrar essa conversa. Mas você devia ter conversado com seu marido antes de levar esses animais para a sua casa. Sempre deve haver concordância mútua.

— Não é redundante falar “concordância mútua”?

— Às vezes é necessário ser um pouco redundante para ver se de alguma forma conseguimos abrir os olhos de quem está cego pelo egoísmo.

— Eu não sou egoísta  retrucou Ana.

— Sinto te dizer isso, mas infelizmente essa foi uma de eu ter vindo para cá: resolvi ajuda-la a vencer esse grande defeito de caráter.

— Então você me julgou assim que me viu? Estava estampado na minha cara que eu sou egoísta e você pensou: preciso consertar essa doida!

— Foi mais ou menos isso…

— Quer saber de uma coisa, eu vou embora e não volto mais aqui! Se eu desejasse ser julgada por alguém pediria para Deus me julgar e não você.

— Ele vai fazer isso no momento certo.

Ana arrematou:

— Vamos esperar então, o julgamento dele eu aceito, o seu não me serve de nada.

Quando chegou na porta Ana voltou-se e falou:

 Quero te pedir uma coisa: Não se sente mais ao meu lado no curso…

CAPÍTULO 5 - RECONCILIAÇÃO

Ana Célia não apareceu na escola por dois dias e Dina, sabendo disso, também não foi. Ela estava esperando o momento certo para continuar ensinando coisas importantes para Ana, afinal de contas foi por isso que ela veio para cá.

É isso que torna a nossa história particularmente interessante: não é todo dia que um anjo desce do céu para ensinar pessoalmente alguém aqui na terra.

O que aconteceu foi que Ana Célia chamou a atenção “dos céus” com sua ignorância disfarçada de sabedoria e mesclada com uma grande dose de ingenuidade. Alguma coisa precisava ser feita com urgência para consertar isso…

— Ela precisava da minha ajuda — murmurou Dina ao se lembrar dos preparativos para a sua missão.

Ana pensou muito nesses dois dias que não foi no curso. Que pessoa petulante era aquela que ficava apontando seus erros e puxando sua orelha o tempo todo?

Mas o mais interessante é que Ana passou a sentir um certo fascínio por Dina, pois apesar de ela ser inconveniente, e muito, parecia haver alguma razão em certas coisas que ela falava…

Por isso Ana ficou pensando:

— Pode ser que eu estivesse errada mesmo quando bati na gatinha… Pode ser que eu também estivesse errada quando trouxe esses cachorros para casa sem falar com meu marido…

Foi por pensar nessas coisas que ela resolveu voltar para o curso. E justamente no dia que ela voltou, lá também estava Dina, só que sentada duas fileiras para trás do lugar de costume.

Ao vê-la Ana foi se sentar ao lado dela.

— Você não pediu para eu não me sentar ao seu lado? — perguntou Dina.

— Olha Dina, peço desculpas por ter surtado, todas aquelas broncas à queima roupa me fizeram perder o rumo da prosa. Mas pensei muito e talvez você tenha razão em algumas coisas…

— Talvez? Então você não pensou direito…

— Tudo bem… Vou pensar melhor em seus conselhos, mas, por favor, pegue leve comigo!

— Tudo bem — respondeu Dina, sorrindo. Vou fazer um bolo hoje à tarde e ficarei feliz com a sua presença…

Nesse momento a professora entrou na sala de aula, inundando todo o ambiente com sua antipatia.

— Combinado! — respondeu Ana.

CAPÍTULO 6 – VERDADEIRO NOME

Assim que começou a tomar o refrigerante Ana perguntou:

— Dina é seu nome verdadeiro ou é apelido?

— É meu apelido, meu nome verdadeiro é Naadiya, que significa mensageira…

— É um nome muito bonito, qual a origem dele?

— Há quem diga que sua origem é árabe, mas na verdade esse nome tem origem celestial…

— Tá bom, quer dizer que você é um anjo que caiu do céu? Por isso tem esses poderes…

Dina quase corou. Ela nunca havia pensado o que um anjo sentiria ao ser descoberto. Mas ela soube disfarçar bem.

— Sim, sou um anjo, mas não caí do céu, desci numa carruagem de fogo — disse ela sorrindo.

Dina queria entrar num ponto muito importante da vida de Ana:

— Como você conheceu seu marido?

— Foi pela Internet — respondeu Ana Célia, sentindo-se meio envergonhada.

— Que legal, ainda bem que temos a tecnologia nos ajudando a encontrar nossos pares atualmente… Foi amor à primeira teclada?

— Sim, eu me apaixonei por ele no primeiro dia que conversamos, mesmo sem conhece-lo pessoalmente. Foi a coisa mais incrível do mundo, parece que era para ser…

Dina já sabia toda a história, mas precisava ouvir da boca de Ana para poder começar sua bronca:

— Conte-me tudo, gosto de histórias de amor.

— Posso falar sobre isso outro dia? — perguntou Ana — Estou me sentindo meio indisposta hoje.

— Tudo bem — respondeu Dina. Sobre o que você quer falar então?

— Gosto muito de música e…

— Ah, sim, eu vi o quanto você gosta de música, tanto que de manhã você vai ouvindo música no carro quando seu marido a leva para o trabalho. Você já pensou em comprar um fone de ouvido?

— Por que? É importante ele ouvir música também…

— Você não percebeu que às vezes ele não gosta?

— Se ele não gostasse ele diria…

— Ele não fala nada para não deixar você nervosa e triste, mas tem certas músicas que você “adora” que para ele é uma verdadeira tortura.

— Mesmo? Você viu isso na bola de cristal?

— Eu vi que mesmo se tratando de músicas que ambos gostam, elas devem ser ouvidas quando ambos estão com vontade de ouvi-las e não quando somente um está querendo.

Ana não sabia o que dizer. Dina continuou:

— Além do mais tem algumas músicas que você gosta que, sinceramente, você não percebe o quanto são ruins?

— Não diga isso, eu só gosto de boa música…

— Músicas com letras ruins, falando besteiras sobre a vida, baboseiras sem sentido, filosofias tolas e frases desconexas são “boa música” para você?

— De qual música em particular você está falando?

— De muitas músicas que você ouve. Além das letras comerciais e de má qualidade, ainda tem as semitonadas dos seus cantores prediletos. Você pode não perceber, mas seu marido percebe todas.

— Eu não percebo semitonada nenhuma. De quais cantores você está falando?

— Não vou citar nomes. Por que você não começa a perguntar o que ele acha de cada música que você gosta de ouvir?

— Mas eu não posso ouvir só o que ele gosta e aprova. Tenho meus próprios gostos.

— Sim, mas eu tenho certeza que ele vai apenas fazer uma análise das músicas. A partir daí você decide se quer continuar ouvindo-a ou não.

— Você acha que se ele falar mal de determinada música eu vou querer continuar ouvindo-a?

— Você não está entendendo o que eu estou falando. Dei essa ideia para que você aprenda a pensar. Depois de algumas análises feitas por ele você começará a entender melhor quando uma música não merece ser ouvida.

Ana interrompeu bruscamente, quase gritando:

— Você o conhece tão bem assim? De onde tirou a ideia que ele é um exemplo de perfeição no mundo?

— Bem, ele tem um nível de bom senso interessante, algo que falta a você…

Ana teve vontade de ir embora de novo, mas ficou em dúvida se devia fazer isso, se fizesse não voltaria ali nunca mais. Por isso pensou melhor e ficou.

Dina procurou se desculpar:

— Querida, não me leve a mal, estou falando isso para o seu bem, você tem muito que melhorar para chegar ao nível mínimo aceitável para um ser humano.

A emenda saiu pior que o soneto…

Ana saiu batendo a porta e resmungando coisas referentes aos órgãos excretores e reprodutores de ambos os sexos.

CAPÍTULO 7 – A PROVA SURPRESA

Dessa vez Ana Célia faltou três dias na aula. Dina também não foi nesses dias.

Quando retornaram a professora Claudete não estava num bom dia. Isso ficou claro porque seus cabelos estavam ainda piores do que o normal, parecia que não eram penteados há meses, ao mesmo tempo em que ela apresentava uma carranca que acrescentava pelo menos dez anos ao seu rosto já bem enrugado.

— Vou fazer uma prova surpresa agora, quem tirar menos que 5 estará antecipadamente reprovado nesse curso!

Todos os alunos se olharam, assustados. Mas só Dina teve coragem de levantar a mão para falar alguma coisa:

— A senhora perguntou para a diretora da escola se pode fazer isso? Que eu saiba todos nós estamos pagando por esse curso e ser reprovado não constava nem nas letras miúdas do contrato que assinamos.

A professora olhou para ela com fogo nos olhos:

—  Você vive me contradizendo. Eu não preciso pedir nada para a diretora, mesmo porque meu salário está atrasado e…

— E a senhora quer descontar em nós… — interrompeu Dina.

A professora levantou rapidamente da sua cadeira, fazendo esvoaçar seus cabelos que mais pareciam uma medonha peruca de arame farpado.

— Não é isso, preciso avaliar os meus alunos, é uma coisa natural em qualquer curso.

Dina continuou:

— Então, professora, eu sugiro que a senhora nos dê a prova surpresa sim, pode ser bom para nos avaliar, mas esqueça a parte da reprovação automática.

Nesse momento a professora perdeu as estribeiras e caminhou até onde Dina estava.

No auge de sua feiura, Claudete era muito maior do que Dina e estava fazendo tudo que podia para que todos notassem isso.

 — Você vai aprender a me respeitar — disse ela.

E antes que Dina pudesse falar alguma coisa deferiu-lhe um forte tapa no rosto.

Mas foi como se tivesse dado um tapa numa coluna de concreto, o que resultou numa fratura exposta em sua mão.

CAPÍTULO 8 - EGOÍSMO

Depois que a ambulância levou a professora para o hospital, Ana perguntou:

— O que foi aquilo?

Dina olhou para Ana e, com ar de surpresa, falou:

— Eu que tenho que perguntar: o que foi aquilo?

— Aquilo o que?!! — perguntou Ana, mais surpresa ainda.

— Você deixou claro que não gosta do filho do seu marido. Você sabia que ninguém gosta de quem não gosta de seus filhos?

— Não sei se estou certa ou errada, mas a verdade é que…

— A verdade é que você é egoísta e quer tudo existindo no mundo só para agradar você.

— Não é assim, é que preciso ter o meu espaço…

— Entendo, todo mundo tem que se afastar para você ter o seu espaço sagrado. Bem interessante a sua filosofia de vida. Sabia que os serem humanos vivem em sociedade?

— Eu não estou gostando dessa conversa! Não quero mais falar sobre isso!

— E você quer falar sobre o que? Sobre música? Vou te contar uma coisa… É por esse motivo que seu marido não quer mais nem ouvir falar de música…

— Por esse motivo? Como assim?

— Você não tem capacidade de observação e dedução? Pare para pensar… Ele vê você falando que ama música, que a música é a sua vida, vê você cantando, ouvindo música de manhã até a noite, fazendo curso de canto…

— Sim, e daí?

— Daí que ele deduziu definitivamente que a música não muda as pessoas. Gostar muito de música não faz de ninguém uma pessoa melhor.

Depois de uma pequena pausa Dina concluiu:

 As pessoas amam música, mas continuam sendo egoístas, impiedosas, incompreensíveis…

O resultado veio a seguir, numa palavra ríspida e seca de Ana:

— Fui!

CAPÍTULO 9 - DEPRESSÃO

Ana Célia já estava acostumada com as broncas de Dina e as intromissões dela em sua vida. Mesmo assim ela se sentia atraída por Dina e isso talvez tivesse um motivo: ela parecia ter sempre razão, apesar de ser difícil admitir.

Por esse motivo ela começou a levar na brincadeira a maioria das broncas de Dina, mesmo que depois, sozinha em sua casa, pensasse seriamente no que ela falou.

Então dessa vez, quando chegou na casa de Dina ela foi logo perguntando:

— Boa tarde amiga! Qual é a bronca do dia?

— Boa tarde Ana. Não sei se podemos chamar de bronca, mas quero te falar uma coisa hoje.

Após servir um copo de refrigerante, Dina falou:

— Como você quer ser lembrada depois que for embora desse mundo?

— Como assim?

— Eu vou ter que falar uma coisa: pelo que tenho visto, se você partir para a eternidade no dia de hoje muita gente vai dar graças a Deus…

— Sério? Você pensa isso de mim? Eu sou tão má assim?

— Não é questão de ser má, mas de não fazer nada para as pessoas gostarem de estar com você.

— Então eu tenho que viver tentando agradar as pessoas? Pode esquecer isso, não vou agradar gente falsa…

— Seria bom se você vivesse assim naturalmente, se você existisse como alguém que faz bem para as pessoas. Mas geralmente você está nervosa, irritada, falando palavrões, sendo irônica… Vou te falar uma coisa…

— Solta a pérola…

— Algumas pessoas do seu convívio iriam dar graças a Deus pela libertação se você partisse desse mundo…

Ana se sentiu profundamente ofendida com o que tinha ouvido:

— Você está sendo injusta comigo, Dina, tem muita gente que gosta de mim!

— Sim, mas tem gente que sofre com a sua presença. Você tem sido chata demais, grosseira demais, sem educação, não pensa nas consequências das suas palavras, principalmente nas suas ironias geralmente mal colocadas e sem sentido…

— Você está passando dos limites, Dina. Eu…

— Você tem que me ouvir e começar a pensar no que tem feito. Uma ironia bem colocada, no momento certo, pode ser útil para abrir os olhos de quem está fazendo coisas erradas. Mas ironias lançadas a esmo o tempo todo fazem de você uma pessoa chata e inconveniente.

— As pessoas têm que me dar um desconto, eu tenho sofrido de depressão, você não sabe que tomo remédio de tarja preta?

Dina não poderia deixar de aproveitar a ocasião:

— Sim, eu sei, mas vou te dizer uma coisa que talvez você nunca tenha ouvido.

— Outra pérola! — disse Ana, sendo irônica mais uma vez.

— Muitas pessoas sofrem de depressão devido ao egoísmo.

— Egoísmo? Você associa depressão a egoísmo? Agora você foi longe demais…

— Às vezes é devido ao egoísmo sim! Se as pessoas pensassem mais no próximo, sentissem preocupação com quem está passando necessidade ao seu redor, no seu círculo de conhecidos, no seu bairro, na sua cidade, não teriam tempo para ficar depressivas. Digo “tempo” entre aspas, vou explicar melhor.

— Sim, explique melhor, porque dessa vez você viajou…

— Se você amar as pessoas ao seu redor, preocupando-se com elas e desejando ajuda-las com amor e não com julgamentos, sua depressão desaparecerá como que por milagre.

— Não consigo fazer isso, não suporto pessoas folgadas nem tenho paciência com quem faz coisas erradas.

— Todas as pessoas fazem coisas erradas, inclusive você.

— Por isso às vezes nem eu não me suporto…

— Exatamente! Imagine as outras pessoas! Por isso, aconselho você a pedir uma coisa a Deus: Amor pelas pessoas, independente dos seus erros. Se Deus amasse só quem é bom e perfeito aqui na terra ele não amaria ninguém. Mas ele ama a todos!

— Você é pastora? Qual a sua religião?

— Minha religião é o amor, sinto amor pelas pessoas e tento ajuda-las.

Ana pensou um pouco para falar:

— Nunca vi você ajudando ninguém…

— E por que você acha que estamos conversando?

CAPÍTULO 10 - MULETA

Ao saírem da aula que precedia o final de semana, Ana confessou a Dina que não estava bem, era como se seu mundo interior tivesse ruído.

Dina perguntou o que ela tinha feito nos últimos dias, com o que preenchia seus dias e seus pensamentos, já que não estar bem podia ser resultado das suas próprias ações.

Mas Ana disse que o que ela mais vinha fazendo na vida era ouvir músicas e ensaiar para fazer gravações.

Dina respondeu:

— A música é muito boa, faz bem para o coração e para a alma, mas como tudo que existe nesse mundo tem que ser dosado.

— Como assim? — perguntou Ana.

— Você pode gostar de música sim, mas deve coloca-la no lugar dela. Não pense que a música tem algum poder mágico na vida das pessoas.

— Não estou entendendo…

— Ana, já falei que ninguém se torna uma pessoa melhor por se envolver com música. Nenhum roqueiro, metaleiro, funkeiro, sertanejo, etc., abandonou seus erros e pecados por causa da música. Muitas vezes o envolvimento ativo no meio musical até serve para aumentar esses problemas. Você já não ouviu falar de tanta gente que morreu devido ao uso de drogas e depressão no meio musical?

— Você está falando bobagem, Dina, a música é uma coisa boa, você está fazendo parecer que ela não presta. Você parece que está do lado do mal.

— A verdade às vezes parece o mal, por isso crucificaram Jesus, por falar a verdade. Ocorre que nunca ninguém falou essas coisas para você, por isso parecem loucuras.

Ana fez a pior cara de desânimo da história da humanidade:

— Tentei conversar com você, mas estou ficando pior do que estava…

— Isso acontece porque você não está querendo entender o que eu estou falando, está fugindo da verdade. A música é boa sim, eu já falei isso, mas eu a trato como ela merece, não com essa importância exagerada que você dá a ela.

Ana virou os olhos. Dina continuou:

 Na verdade, a música, como conhecemos na terra, é um conjunto de sons orquestrados com ritmo e letra, onde se passa uma mensagem. Não é nada mais do que isso.

— Isso tudo que você falou é a maior loucura que já ouvi na vida.

— Sim, para você deve ser mesmo, porque você tem uma ideia preconcebida com relação à música. Meu medo é que você a use como muleta ou como fuga para os dissabores da vida, aí ela pode virar um vício, e vícios nunca fazem bem, só mal.

Ana Célia não entendeu o que Dina estava tentando dizer, ou não quis entender. A verdade é que ela realmente foi embora ainda pior do que estava.

Dina percebeu isso, mas não se sentiu mal, pois tinha falado a verdade, e a verdade tem que ser dita sempre, doa a quem doer.

CAPÍTULO 11 – DESPERDÍCIO EXPLÍCITO

Na segunda-feira Ana Célia apareceu de manhã na casa de Dina. Parecia estar um pouco melhor.

— Você pensou em tudo que eu falei? — perguntou Dina, sorrindo.

— Não quero falar de música…

Dina já sabia que Ana não tinha dado importância alguma ao que ela falou.

— Tudo bem. E o que a traz aqui tão cedo?

— Nada de mais, acordei, tomei um banho e resolvi caminhar um pouco…

Dina não podia perder a oportunidade:

 Por falar em tomar banho, acho muito legal você contribuir nas finanças da casa pagando a água e a luz.

— Mas eu não pago nada, é meu marido quem paga.

— O que?!

Dina estava fingindo que estava surpresa, para que a sua bronca surtisse efeito.

— Quer dizer que não é você quem paga a água e a luz? Então você está no mínimo prejudicando financeiramente seu marido!

— Como assim, nunca prejudiquei ninguém…

— Você entra no banheiro, liga o chuveiro numa temperatura alta, que consome ainda mais energia, e vai para o vaso sanitário fazer suas necessidades, deixando o chuveiro ligado. Hoje marquei 5 minutos de consumo desnecessário.

— Eu… é que…

— Eu pensei que você fizesse isso porque você paga a água e a luz. Mas se não é, então você está sim prejudicando as finanças da família. Você sabe quanto vai ser necessário pagar a mais de água e luz por você fazer isso todos os dias? Lembre-se que às vezes você toma dois ou três banhos por dia.

— Eu não sabia que fosse tanto…

— Mesmo que não fosse tanto, fosse quanto fosse, você está jogando dinheiro no ralo, você não tem consciência disso?

— Nossa, calma, não é tanto assim…

Dina estava sem paciência. A bronca continuou:

— E depois você vem me falar de música… Procure entender a vida primeiro, depois pense em amar a arte.

— Você está me ofendendo, Dina.

— Eu estou cansada das suas ignorâncias.

— Eu não sabia que você era tão grossa assim — disse Ana, triste.

Dina realmente perdeu as estribeiras. Não era possível entender como alguém pode viver tão distante da realidade, jogando no esgoto coisas tão cruciais à vida.

E mais uma vez Ana se sentiu oprimida e depressiva.

— Mas talvez ela esteja começando a pensar — balbuciou Dina para si mesma.

CAPÍTULO 12 – IRONIA REVELADORA

Pela primeira vez Dina não compareceu ao curso em um dia que Ana Célia foi.

— Será que ela ficou doente?

Ao pensar isso Ana tentou ligar para Dina, mas não foi atendida. Por esse motivo, na saída da escola ela foi direto para a casa dela.

Depois de acionar a campainha por alguns minutos Ana resolveu desistir, porém viu Dina se aproximando de uma direção na calçada.

— O que aconteceu, Dina? Eu estava preocupada com você!

— Por que você não se preocupa com você mesma, Ana? Vou te falar uma coisa: eu estou a ponto de desistir.

— Desistir do que? Você ficou louca?

— Não, Ana, quem está agindo como louca é você. Desde que nos conhecemos, infelizmente você está piorando dia a dia. Ou seja, de nada está adiantando a minha interferência na sua vida.

— E desde quando eu pedi que você interferisse na minha vida? Eu pensei que fôssemos amigas, esse tipo de relacionamento de interferência não me interessa nem um pouco.

Dina pensou por alguns segundos antes de falar:

— Eu preciso que você saiba uma coisa… eu não ia te falar isso, mas as circunstâncias me obrigam.

— Vai lá, solta a pérola…

— Eu estou aqui para tentar impedir um sofrimento muito grande na sua vida, um sofrimento maior do que qualquer pessoa poderia suportar.

— Que sofrimento? Não estou entendendo…

— Ana, você está plantando a pior semente que alguém pode plantar na própria vida. Se eu for embora, nada mais poderá impedir isso de acontecer.

— Quer dizer que você desceu dos céus para tentar me livrar de um sofrimento?! Muito obrigada, pode voltar para lá então.

— Você não sabe o que está falando…

Ana parece ter tido um estalo na cabeça:

— Espere um pouco. Quero saber o que fez você mudar tanto assim com relação a mim, de tal forma que nem foi no curso.

Dina respondeu:

— Quando alguém sabe que aconteceu uma injustiça, o que a pessoa deve fazer? Ela deve lamentar e desejar que tudo se ajeite e a injustiça seja desfeita ou deve ficar destilando ironias venenosas?

— Você está insinuando que as minhas ironias são venenosas?

— Não estou insinuando, estou falando com todas as letras: suas ironias são para lá de venenosas e maldosas. É isso que uma pessoa de bem deve falar sobre quem sofreu uma injustiça?

— Agora entendi do que você está falando. Fiquei preocupada com você, mas perdi meu tempo. Estou indo embora!

Após Ana se distanciar alguns passos Dina falou:

— Você deve se preocupar com você mesma, eu não estou correndo nenhum risco como você está.

CAPÍTULO 13 – EXPLICANDO O INEXPLICÁVEL

Dina entrou em sua casa e sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos. Ela não se lembrava de ter ficado tão triste assim em toda sua longa existência angelical.

Sentando-se no confortável sofá da sala, Dina começou a pensar no que deveria falar para Ana num possível último encontro.

— Será que adiantaria falar mais alguma coisa? — pensou ela.

Começou, então, a recordar o que tinha acontecido para ter ficado tão chateada.

Ana fez uma acusação injusta, porém sem sentido. Foi simplesmente um grande mal-entendido da parte dela.

Não havia dúvida alguma, tudo ficou esclarecido, mas ao perceber que estava errada o que Ana fez? Não foi o que qualquer pessoa que descobre que errou faria, podem ter certeza disso.

Ana deixou o ódio inflamar seu coração. Ela não pensou em pedir desculpas por ter feito uma acusação injusta, mas começou a ser irônica sem nenhuma piedade.

Adiantaria falar que os demônios dançam felizes a cada ironia maldosa proferida por ela?

Adiantaria falar que Deus é amor e perdão, enquanto o diabo é ódio e acusação? E que se ela sentir ódio e viver acusando todos ao seu redor, estará fazendo a vontade do diabo e não de Deus?

Não, não adiantaria, ela se vê como uma boa pessoa, como alguém que aprendeu a ser honesta, íntegra, correta e a ter honra.

Por isso Dina estava propensa a ir embora. Ela não estava enxergando mais nenhuma solução para o “caso Ana Célia”, estava desanimada como nunca esteve na vida.

As lágrimas continuavam a rolar do seu rosto até que algo dentro dela lhe disse: 

 Tente mais um pouco!

— Sim, é isso que vou fazer, vou tentar mais um pouco — disse ela enxugando as lágrimas.

CAPÍTULO 14 – SEM NOÇÃO

Tinha um feriado prolongado pela frente e isso foi bom para Dina colocar as ideias no lugar.

Não era fácil, mesmo para ela, enfrentar uma situação onde tudo caminhava rumo à derrota.

A insensatez de Ana era tanta e tão sem sentido que Dina não conseguia assimilar aquilo.

— Será que ela não consegue pensar?

Visualizar as consequências diretas e imediatas de seus atos já tinha ficado claro que Ana não conseguia. Mas pensar? Raciocinar? Será que é tão difícil?

Quando voltaram as aulas após o feriado, Dina ficou parada na frente da sua casa, desanimada.

— Não estou com vontade nenhuma de ir. Mas essa é a minha missão e ninguém poderá dizer que não lutei até o fim.

Ana também estava sem vontade de ir, mas, da mesma forma que Dina, tomou coragem e foi.

— Tudo bem Dina? — disse Ana na saída da aula.

— Tudo bem, ou melhor, mais ou menos, estou triste.

— É por minha culpa? O que eu fiz agora, consultou sua bola de cristal esses dias?

— Você fez muita coisa que me deixou triste…

Ana franziu a testa, como se não estivesse acreditando no que estava ouvindo.

— Dê um exemplo, por favor…

— Posso dar muitos exemplos, um deles é que você continua impondo seus gostos musicais para todos que frequentam a sua casa.

— Como assim? Ninguém gosta das músicas que eu gosto?

— Muitas delas só você gosta. Algumas as pessoas até gostavam, mas enjoaram de tanto que ouviram.

Ana Célia ficou irritada, mas tentou manter a calma.

— Você já ouviu falar: os incomodados que se mudem?

— Sim, já ouvi. Quer dizer que você impõe seus gostos musicais para todos e quem não gostar deve ir embora? É essa a sua filosofia de vida?

— Sim, eu penso assim, quem não gostar a porta da rua é serventia da casa.

— Você não pensou que quem pode ter que usar a porta da rua é você?

— Por que, meu marido vai me colocar na rua?

— Não, ele não faria isso, mas você não pensou que a própria vida pode vir a colocar você no seu devido lugar?

— E qual é o meu lugar?

— Qualquer lugar menos junto de pessoas que você obriga a ouvir seus lixos musicais.

— Dina, você está me ofendendo e muito. Eu não ouço lixo musical, só ouço boa música. Lixo são esses funks que tocam por aí.

— O fato de você gostar de uma música não a transforma miraculosamente em boa música. De onde você tirou essa ideia?

— Mas que diferença isso faz? São músicas inofensivas, não fazem mal para ninguém…

— Ana, pare um pouco para pensar: o que as pessoas não gostam e são obrigadas a ouvir pode fazer muito mal para elas.

— Eu quero que todos #$*@… e você também… cansei de tudo…

Ana começou a falar os piores palavrões que a língua portuguesa conseguiu produzir nos últimos séculos.

Dina foi embora falando para si mesma:

— Pelo menos eu falei o que era preciso.

CAPÍTULO 15 – O SUSTO

Pela primeira vez Ana Célia ficou realmente pensativa com relação às coisas que Dina falou.

Não que ela achasse que Dina estava certa, mas por não entender exatamente o que estava acontecendo.

Talvez por isso ela decidiu que devia se desculpar com Dina, e o fez no final da aula do dia seguinte:

— Dina, peço que me perdoe por eu ter falado aqueles palavrões. Você invade muito a minha privacidade e isso pode acabar com a nossa amizade.

— A nossa amizade não é o mais importante. Tem algo muito mais importante em jogo e se eu conseguir fazer você entender irei embora feliz, mesmo que nossa amizade acabe.

— Pelo menos esse final de semana eu fiquei super de boa. Não aconteceu nada por lá, acho que nem brigamos…

— Não aconteceu nada muito sério não, mas que susto você me deu!

— Susto?! Como assim? O que eu fiz dessa vez? — perguntou Ana, procurando aparentar o máximo possível um alto grau de perplexidade.

— Deixa-me falar uma coisa — disse Dina, olhando para Ana com aquele tão conhecido ar de reprovação.

— Estou ouvindo — respondeu Ana, virando os olhos.

— As informações que você possui são óbvias para você, porque você entrou em contato com elas, mas para quem não as obteve elas não podem ser óbvias.

— Do que você está falando? Ficou maluca? Eu sei que sou um pouco chata às vezes, mas do que você está falando especificamente?

— Você não é um pouco chata, é bem pior que isso.

— E você também, não é? Não percebe que está me enchendo o saco, invadindo a minha privacidade?

— Não tente me comparar a você, aliás, não se comparece ninguém, não conheço ninguém que tenha atingido esse nível de ignorância.

— Então você não deve conhecer muita gente…

— Eu conheço pelo menos dez milhões de pessoas a mais que você. Saiba que eu não conheço só a humanidade!

— Eu posso até ser chata, mas você é completamente louca…

— Vamos ao que interessa, não me corte enquanto estiver falando, por favor.

— Tudo bem, senhora dona da verdade!

— Você recebeu uma mensagem de uma pessoa e com isso estava em poder de uma informação. Uma informação sem muita importância, mas de qualquer forma era uma informação.

— Tá, e daí?

— Você contou para o seu marido essa informação e ele perguntou quem havia te contado aquilo. Nesse momento você deu um grito tão alto que quase quebrou a minha bola de cristal. Acho que até os meus vizinhos se assustaram, imagine os seus.

— Eu já tinha falado quem me contou, ele é surdo…

— Você não tinha falado não, eu acompanhei tudo desde o começo, você só contou o fato, não quem havia te contado. Portanto, não era óbvio quem era a pessoa que te contou, poderia ser qualquer pessoa dentre dezenas de conhecidos e parentes que você tem.

— Eu gritei mesmo, ele devia saber que foi a Edvânia.

— Por favor, me responda uma coisa: como ele poderia saber se você não tinha falado?

— Está certo, eu errei, mas isso é tão grave assim?

— É muito mais grave do que você pensa, nenhum homem gosta de mulher grossa, estúpida e ignorante… E você não tem dificuldade de ser tudo isso de uma vez só.

— Quer dizer que eu tenho que ser uma “Amélia”, dócil e meiga o tempo todo?

— Não, Ana, quer dizer que você precisa ser normal.

— Eu sou o que sempre fui. Sempre fui assim e não vou mudar por causa de ninguém!

— Quer dizer que você sempre foi estúpida e grossa, e deseja continuar sendo assim a vida toda?

— Exatamente! Finalmente você entendeu…

— Espero que um milagre aconteça e você perceba que está sendo inconsequente.

Ana ficou um pouco em silêncio. Por fim desistiu de tentar se defender:

— Tudo bem, vou tentar não falar tão alto da próxima vez.

— Fico feliz com isso, Ana   disse Dina sorrindo.

Elas se despediram e depois que se afastaram alguns metros Ana virou-se, falando em voz alta:

— Eu não sabia que seus ouvidos eram tão sensíveis…

CAPÍTULO 16 – SER NORMAL

No dia seguinte Ana apareceu na casa de Dina antes do horário do curso.  Assim que entrou ela começou a chorar:

— Quando eu conheci meu marido, uma amiga minha me falou que ele nunca ia me amar da forma que eu quero.

— Essa sua amiga tinha um espírito adivinhador junto com ela. A maioria das coisas que ela falava eram verdadeiras. Mas nós fazemos o nosso destino e podemos mudar o curso de muitos acontecimentos com uma boa dose de bom senso.

— Não, isso não vai mudar, ele nunca vai me amar como eu sonhei, nunca…

As lágrimas não paravam. Ana pediu para usar o banheiro e foi chorar lá. Quando voltou Dina falou:

— Eu não consigo entender porque é tão difícil ser normal. Ser uma mulher consciente, bondosa, piedosa, ponderada… São essas coisas simples que cativam um homem.

— Eu não consigo, tenho que ser firme para não ser feito de besta…

— Não acredito que você não consiga entender as coisas. Você pode ser firme o quanto for e ele pode te fazer de besta mesmo assim. Você pode ser ponderada e ele nunca te fazer de besta.

— Quer dizer que ele me faz de besta então? Você viu isso na sua bola de cristal? Ele me engana com outras?

— Eu só falei que a mulher ser estúpida ou ponderada não vai mudar nada com relação a ser traída.

Dina refletiu um pouco e tentou explicar melhor:

— Olha, Ana, é muito mais fácil uma mulher estúpida ser feita de besta, você não consegue perceber isso?

— É um mecanismo de defesa, eu tento me defender para não ser engolida pelo sistema…

— Sabe com o que eu comparo seu mecanismo de defesa?

— Pode ser com qualquer coisa, já conheço seus devaneios.

— É o mesmo que você se defender do ataque de um leão com um alfinete. Esse é o seu mecanismo de defesa.

— Você está querendo dizer que vou ser engolida pela vida de qualquer forma?

— Estou querendo dizer que o seu mecanismo de defesa não te defende de nada. Você deve viver normalmente, sem se preocupar com isso, simplesmente viva a sua vida.

— Eu aprendi que devo ser forte para não ser pisada…

— Você só precisa se defender de você mesma. Você é a sua verdadeira ameaça, com seus gestos impacientes, sua inconsequência, seus gritos e seus julgamentos injustos.

Ana ficou olhando para alguma coisa inexistente no teto sem saber o que responder. Dina completou:

— Só você pode causar sua própria ruína, ninguém mais vai fazer isso.

— E o que eu devo fazer? Fugir de mim mesma?

— Você precisa se educar para ser uma pessoa normal. Por exemplo, quando seu marido perguntou quem tinha te passado aquela informação que falamos ontem, você deveria ter respondido simplesmente: Foi a Edvânia.

— Foi a Edvânia — repetiu Ana, com a voz baixinha e submissa.

— Não! Assim não! Assim você vai parecer uma idiota, nenhum homem gosta de mulheres idiotas. Bastaria responder normalmente!

— Sei, eu devo andar segundo a cartilha dele…

— Não, Ana, você não tem que andar segundo a cartilha de ninguém, você só precisa ser normal, responder normalmente, só isso.

— Tá bom, eu vou tentar ser normal como você quer, mesmo que eu pareça uma idiota — disse Ana, virando os olhos.

—  Se você for normal não vai parecer idiota   retrucou Dina.

CAPÍTULO 17 - ANÃO E GIGANTE

As aulas ficaram suspensas durante as festas de Natal e Ano Novo. Dina e Ana Célia não se falaram durante esse período, mas Ana mandou algumas mensagens para a amiga, as quais não foram respondidas nem visualizadas.

Quando voltaram as aulas Ana foi cobrar de Dina o pouco caso com suas mensagens de felicitação.

— Não foi possível — desculpou-se Dina.

— Por que? Você viajou para algum lugar que não tem torre de celular?

— Foi mais ou menos isso…

— Tudo bem, você tirou umas férias merecidas de mim. Pelo menos não deve ter nada para me recriminar dessa vez.

— Bem, não chega a ser nada, hoje de manhã eu vi sua histeria.

— Histeria? Como assim? Eu não fiz nada.

— O problema é que você não costuma respeitar as pessoas.

— O que eu fiz dessa vez?

— Quando alguém pergunta alguma coisa para você, espere a pessoa terminar a pergunta e responda normalmente. Esse modo de cortar e responder com grosseria é muito feio.

— Nossa! Você está delirando. Não aconteceu nada disso.

Dina olhou para Ana com impaciência e falou, imitando as vozes:

— Ana, onde está a minha calça nov… Numa sacola no guarda-roupa… Em que part… Na porta da direita… Vou ver l… Tem que passar… Porque você não me deixa terminar as fra… Estou com sono, não consigo ser dócil… Não precisa ser dó… Ah, que bom, então me deixe em paz…

Ana ficou assustada, pois nunca tinha visto Dina fazer imitações.

— Mas isso não é grave…

— Estar com sono é desculpa para ser grossa e tratar os outros com indelicadeza?

— Isso não tem conserto, eu não consigo mudar, sou assim mesmo.

— Sabe qual é o caos que eu vejo nisso?

— Chegamos a uma situação de caos ao falar de uma simples conversa familiar?

— Você pode não perceber, mas isso acontece em muitos lugares da terra. No entanto, prefiro não falar, descubra por si mesma…

— Agora que começou a falar pode concluir. Estou esperando…

— Ok, já que você insiste, lá vai: um anão nunca vai ficar do tamanho do gigante só pelo fato de gritar.

— Mas o anão pode ser mais inteligente que o gigante — contestou Ana.

— Estou falando de “anão” justamente no quesito inteligência   rebateu Dina.

CAPÍTULO 18 - AVALIAÇÃO POSITIVA

No dia seguinte Ana e Dina se encontraram na entrada da escola.

— Tudo bem, Dina? — perguntou Ana, aparentemente preocupada.

— Tudo bem! Está um lindo dia hoje!

— Estou achando que as broncas vão ser pesadas hoje, estou sentindo algo estranho no ar — disse Ana, aflita.

— Hoje não tenho bronca nenhuma, aliás, preciso te falar uma coisa.

— Pérola…

— Não, não é o que você está pensando. Ocorre que pela primeira vez sua avaliação foi positiva.

— Avaliação? Como assim? Estou sendo avaliada por você?

— É modo de dizer, mas…

Dina pensou um pouco para falar:

— De certo modo eu avalio sim, e você aparentemente está apresentando indícios de melhoras… Parece que você está deixando um pouco de luz entrar em sua cabeça.

— Entendo, estou começando a viver conforme a sua cartilha…

— Mais ou menos… Vamos entrar, está começando a aula.

Elas estavam subindo a escada que dá para a sala de aula quando Dina falou:

— Prepare-se, porque sua intuição está certa. Vamos ter alguns problemas na aula hoje.

CAPÍTULO 19 – MANDADO DE PRISÃO

A aula transcorria tranquila e aparentemente normal, exceto que a professora parecia mais nervosa do que de costume.

— Ela está ainda mais estranha, sussurrou Ana para Dina.

— Mas tem motivo — respondeu Dina. Mais alguns minutos e você saberá porque.

Não se passaram nem dois minutos dessa conversa e ouviu-se bater na porta da sala de aula.

A professora foi abrir tão rapidamente que tropeçou e só não caiu porque se apoiou num vaso de flor que estava perto da porta.

— A desastrada quebrou a planta — resmungou Dina.

Ao abrir a porta todos os alunos se assustaram. Era a polícia.

— Quem é a Sra. Naadiya?

A professora não esperou Dina responder e já apontou para ela seu dedo enrugado:

— É aquela ali, na terceira carteira.

— A senhora está presa.

Começou um grande alarido na classe, todos falavam ao mesmo tempo. Ana gritou:

— O que você fez Dina?

— Eu não fiz nada, armaram para mim. Depois eu explico melhor.

— Acho bom mesmo, não quero ter uma amiga criminosa.

— Não se preocupe, tenho o coração puro.

Aproximando-se do ouvido de Ana, Dina falou:

— Vá em minha casa daqui a meia hora, estarei lá.

— Mas a polícia vai te prender.

— Eles não vão conseguir. Faça o que eu falei.

Um policial ordenou que Dina colocasse as mãos para trás e colocou a algema nela. Mas a algema caiu no chão logo depois que foi colocada. Ele tentou várias vezes e a algema sempre caía no chão.

— Deve estar com defeito. Disse o policial, ficando vermelho ao olhar para os alunos.

— Vamos sem algema mesmo!

— Só uma coisa — disse Dina. Preciso ir no banheiro urgente, fiquei nervosa, o senhor entende…

— Vai lá na delegacia, não temos tempo.

— Se o senhor não se importar de sujar a viatura…

— Tudo bem, vamos lá. Onde é o banheiro professora?

Dina entrou no banheiro e já estava lá por dez minutos. Foi quando os policiais resolveram arrombar a porta.

— O que é isso?! — gritou um policial.

Não tinha ninguém no banheiro.

CAPÍTULO 20 – A DENÚNCIA

Ana chegou na casa de Dina e tocou a campainha. Ela não tinha presenciado a cena do banheiro e pensou que Dina estava presa. Mas pelo sim, pelo não, resolveu fazer o que sua amiga falou.

— Oi Ana, pode entrar.

Era a voz de Dina no vitrô da sala, abrindo o portão da frente com o controle remoto.

— Como você conseguiu escapar?

— Eles não podem me prender, a menos que eu permita. E não permiti hoje porque queria te contar o que aconteceu.

— Conte logo então, Dina, estou correndo risco aqui com você, que eu saiba estou ao lado de uma foragida da justiça.

— O único lugar que você não corre risco nesse mundo é comigo, Ana. Pode ficar tranquila.

— Então comece a falar, o que aconteceu?

— Bem, você se lembra que a professora tentou me dar um tapa na cara e quebrou a mão?

— Sim, lembro.

— Pois ela deu queixa na polícia.

— Mas foi ela quem te agrediu. E isso não é caso para prisão…

— Sim, ocorre que ela alegou que eu roubei a bolsa dela.

— Mas a polícia aceitou uma acusação sem provas?

— Vieram algumas intimações para eu me defender e eu não compareci. Então eles presumiram que eu sou culpada. Por isso o juiz decretou minha prisão.

— Mas porque você não compareceu às audiências?

— Talvez porque eu estava querendo um pouco de ação, um pouco de diversão, sei lá, estou cansada da rotina desse mundo.

— Muito interessante, Dina, ser procurada pela polícia é divertimento para você.

— Em certo ponto, sim, Ana, mas vou ser sincera com você: isso faz parte da minha missão. Estamos focando em mais de meio século à frente. No entanto, você verá o quanto vamos nos divertir, vamos até passear de helicóptero.

— O que?!! Você ficou maluca?!

— Não fiquei não, Ana. E depois que eu, ou melhor, depois que nós nos divertirmos um pouco, vou provar minha inocência.

— Sabia que você tinha uma carta na manga, Dina.

— Tenho sim. Venha aqui ver.

Dina abriu a janela de um quarto e apontou para um objeto vermelho no chão do quintal, a poucos metros da piscina.

— Essa é a bolsa da professora…

— Então você realmente roubou a bolsa dela?

— É claro que não, Ana, ela mandou alguém jogar a bolsa aí. Mas sei quem foi e na hora certa vou fazê-lo confessar.

— Na hora certa? Por que não faz agora?

— Não, que graça teria? Você conhece as Cataratas do Iguaçu?

CAPÍTULO 21 – A PRISÃO

No dia seguinte Dina foi à escola normalmente. Todos ficaram se olhando assustados, pois não sabiam o que tinha acontecido.

— Já soltaram você? — perguntou um colega mais afoito.

— Nem chegaram a me levar presa, eu fugi. Mas não vou fugir hoje…

A professora levou um susto quando entrou na sala e deu de cara com Dina na costumeira terceira carteira.

— O que você está fazendo aqui? — gritou ela.

— Estudando — respondeu Dina. É para isso que as pessoas vão à escola.

— Insolente! Vou ligar para a polícia.

Gesticulando nervosamente a professora ordenou:

— Pessoal, não a deixem sair, dentro de alguns minutos a polícia estará aqui. Ontem ela conseguiu fugir, mas hoje vai ser diferente.

— Vai ser mesmo — disse Dina, sorrindo. E completou:

— Professora, a senhora poderia ir dando a aula enquanto esperamos, os alunos do curso não têm culpa dos seus devaneios.

— Meus devaneios? Quem está sendo procurada pela polícia é você e não eu.

— Sim, mas injustamente, e a senhora sabe disso. Sabia que o feitiço costuma virar contra o feiticeiro?

— Você é maluca… Ainda bem, eles já chegaram.

Quatro policiais truculentos adentraram a sala de aula, muito nervosos e irritados.

— Dessa vez a algema não vai falhar, mocinha. Coloque as mãos para trás.

— Tudo bem, policial. Mas se eu quiser elas vão falhar sim.

— Cale a boca, sua vadia! — Gritou o policial e deu um tapa no rosto de Dina, mas saiu pulando igual a uma rã, segurando a mão que sangrava.

— O que tem na sua cara? Parece concreto. Quase quebrei a minha mão!

— Quase? — ironizou Dina. O senhor precisa tirar um raio X urgentemente, logo vai começar a inchar.

— Coloquem a algema nessa maluca, vamos prender logo essa piranha…

Dina deixou colocarem a algema nela, caminhou até a porta da sala e antes de sair virou-se para a turma sorrindo e falou:

— Já não se fazem mais algemas como antigamente!

Imediatamente a algema caiu no chão.

O policial pegou a algema e empurrou Dina, falando:

— Vamos sua p… Vai sem algema mesmo.

— Aconselho a não encostar muito em mim, policial — disse Dina, em tom ameaçador.

— Por que? Você vai me agredir?

— Não, é claro que não, mas o senhor pode machucar a outra mão…

CAPÍTULO 22 – LIVRAMENTO

Dina entrou na viatura, mas ela não funcionou por uma falha no motor. Enquanto os policiais verificavam o problema, Ana correu até lá e falou baixinho com Dina pela janela do veículo.

— Você vai fugir de novo?

— Sim, mas preciso fazer uma coisa na cadeia antes. Tem outra pessoa presa injustamente e vou ajuda-la a fugir.

— Mas essa pessoa vai ser perseguida, poderá até ser morta pela polícia.

— Isso não vai acontecer, vou lhe dar as chaves para provar sua inocência.

Ana não escondeu que estava chorando.

— Não chore, Ana, estou aqui porque eu quero. E amanhã vamos nos divertir muito. Esteja em casa 11:00 horas da manhã em ponto. Não se atrase senão vai perder a diversão.

— Mas e a escola?

— Vamos faltar amanhã.

Nesse momento o motor da viatura funcionou. Dina falou para Ana:

— Esse defeito no motor foi só para nós podermos conversar. Fique em paz e não se esqueça de estar em casa no horário combinado.

— Sim, estarei lá.

Ana viu a viatura se afastando e estranhamente se sentiu feliz.

— Tudo bem, minha amiga, parece que você sabe o que está fazendo.

Ao chegar na delegacia, Dina foi colocada em uma cela onde já havia outra mulher presa.

— Eu sei que você é inocente, Jurema — disse Dina, olhando nos olhos de sua companheira de cela.

— Como você sabe meu nome? E como sabe que sou inocente?

— Eu vou tirar você daqui, mas terá que seguir à risca minhas instruções para provar sua inocência.

— Não quero fugir, só quero provar minha inocência. Se eu fugir vou ser perseguida pela polícia e…

— Se você seguir minhas instruções vai conseguir provar sua inocência amanhã mesmo. Além disso, você não pode ficar aqui, estão planejando mata-la amanhã à noite.

— Como você sabe disso?

— Robson, o verdadeiro culpado, já encomendou a sua morte. Se eu não viesse aqui hoje, depois de amanhã logo pela manhã você seria encontrada morta.

— Pelo amor de Deus, não quero morrer, o que eu devo fazer?

CAPÍTULO 23 – NOVA FUGA

No dia seguinte Dina chegou 11:00 horas em ponto em frente à casa de Dina e tocou a campainha, duvidando novamente que ela estaria lá.

— Pode entrar, Ana! — gritou Dina da janela.

— Que coisa mais maluca… nunca pensei que fosse presenciar algo assim nessa vida — disse Ana para si mesma.

Assim que entrou, Dina falou, eufórica:

— Você precisava ver a cara deles quando encontraram nossa cela vazia. Eu e a Jurema fugimos antes do amanhecer.

— Quem é Jurema? — perguntou Ana, curiosa.

— É uma longa história, qualquer dia eu te conto, mas agora precisamos nos preparar para a viagem.

— Vamos viajar? Para onde você vai fugir?

— Não vou fugir, só vamos dar um passeio muito agradável pelo céu.

— Vamos morrer, então?

— É claro que não… você trouxe blusa de frio?

— Por que eu traria? Hoje está calor…

— Onde vamos a temperatura vai estar baixa. Mas tenho algumas blusas que servem para você aqui.

Enquanto Dina arrumava uma mala, Ana falou:

— Não vi seu carro na garagem, o que aconteceu com ele?

— Ah, sim! Deixei-o pronto para a nossa volta.

— De onde vamos voltar?

— Você verá em breve, Ana, tenha paciência.

Nesse momento a campainha da casa tocou.

— Eles já chegaram — disse Dina, eufórica.

— Quem chegou, Dina?

— A polícia, quem mais você pensou que seria?

CAPÍTULO 24 – A CASA MISTERIOSA

Dina atendeu os policiais pelo interfone.

— Não quero comprar nada hoje — disse ela antes de alguém falar qualquer coisa do outro lado.

— É a polícia. Viemos procurar a senhora Naadiya.

Ana tinha dificuldade de se acostumar com o estranho nome verdadeiro de Dina.

— Sou eu mesma, mas não posso atender agora, estou muito ocupada preparando-me para uma viagem.

— Estamos com um mandado de prisão contra a senhora, não poderá viajar e sim voltar para a cadeia.

— Vocês não podem voltar daqui a alguns dias?

— Não podemos, ou a senhora se entrega ou vamos invadir a casa.

— Ok, comecem a tentar logo, não quero me atrasar para a minha viagem.

Os policiais olharam um para o outro. Ato contínuo pegaram uma espécie de marreta na viatura e começaram a dar bordoadas no portão.

— Que material é esse? — perguntou um dos policiais.

Depois de meia hora tentando, eles desistiram de arrombar os portões da casa. Resolveram então pular o muro, que tinha uma espécie de cerca elétrica na parte superior.

— Vamos colocar uma escada e cortar os fios, pelo jeito não tem energia elétrica nessa cerca.

Ocorre que eles também não conseguiram cortar os fios da cerca elétrica. Quebraram três alicates nas tentativas infrutíferas. E não conseguiram também saltar sobre a cerca, porque ela era muito fina e tinha mais de um metro de altura.

Ao tentar se apoiar na cerca para escala-la, cortavam profundamente as mãos, como se segurassem em lâminas de barbear. E não dava para passar entre elas, por terem apenas dez centímetros de distância de uma para a outra.

— Não dá passar pelo muro — deduziram eles.

Dina continuava arrumando as coisas tranquilamente.

— Vamos almoçar? — disse ela, com o costumeiro sorriso no rosto.

— A polícia está tentando invadir a sua casa e você vai almoçar?

— Sim, vamos almoçar, eles não vão conseguir entrar.

Em dado momento, durante o almoço, Dina falou:

— Acho melhor você tampar os ouvidos.

— Por que?

— Faça isso agora, pode prejudicar seus tímpanos…

Assim que Ana tampou os ouvidos, ouviu-se um barulho tão alto que parecia o fim do mundo.

— O que aconteceu? — perguntou Ana, desesperada.

— Eles tentaram explodir o meu portão com dinamite.

— Como você conseguiu fazer uma casa tão resistente?

— Meus amigos me ajudaram. Eles trouxeram material de um planeta distante. Esse material não existe aqui na terra.

— Dina, vamos devagar com isso… Você é de outro planeta? Está me assustando…

— O mais interessante, Ana, é que esse material é facilmente cortado em Tqmor, devido à tecnologia avançada deles. Eu só estou usando esse material aqui porque na terra não tem como destruí-lo.

— Mas é possível fazer esse material aqui na terra?

— Dá para fazer algo muito parecido, mas só vão conseguir daqui a uns 130 anos, se eu não estiver enganada. Talvez até mais, só sei que antes desse tempo é impossível.

— Pode me falar mais desse tal planeta?

— Agora não vai dar, nossa condução está chegando.

CAPÍTULO 25 – MAU HUMOR

Ana e Dina olharam pela janela do quarto dos fundos e viram um helicóptero descendo no quintal da casa. Ana gritou, perplexa:

— O que é isso, Dina?! Eles vão entrar de qualquer forma, vamos sair daqui agora…

— Calma, Ana, a situação está sob controle.

— Não estou vendo nada sob controle, sua casa está cercada e agora vão invadir de qualquer forma, pois já estão para dentro dos muros e…

— Não faz diferença nenhuma, as portas e janela da casa também são reforçadas, eles vão ter que desistir de entrar, pelo menos por hoje, senão como vamos fazer nosso passeio?

— Será que eles vão mesmo desistir? — perguntou Ana, duvidando que tudo estava realmente sob controle.

— Acredito que sim, porque quando eles constatarem que não vão conseguir entrar na casa pelos métodos tradicionais, vão ter que conseguir uma ordem judicial para explodir a casa, e nesse caso só retornarão amanhã.

— Mas eles não pediram ordem judicial para tentar explodir seu portão.

— Realmente, eles podem ser processados por isso, mas até então era só um portão. Eles não vão arriscar explodir uma casa sem autorização judicial.

— Espero que você esteja certa — disse Ana, apreensiva.

Depois de pensar um pouco Ana falou:

— Esses últimos fatos serviram para uma coisa: você parou de me criticar como vinha fazendo.

— Pode ser que eu tenha tido menos tempo para isso, mas também tem um certo mérito da sua parte: você melhorou um pouco, veremos se continuará assim.

— Para mim está tudo da mesma forma, tudo aquilo era exagero seu.

— Não era exagero não. Por exemplo, você costuma acordar de mau humor, não é mesmo?

— Sim, é de família, a maioria dos meus irmãos acordam muito mau humorados, mas depois, no decorrer da manhã, vamos melhorando.

— E o seu marido acorda bem-humorado, brincando, fazendo piadas…

— Sim, e isso me irrita muito.

— Hoje de manhã eu vi o quanto o bom humor dele te irrita. Mas você não percebeu que ele tenta fazer você ficar melhor? No entanto, você o faz ficar pior.

— Não gosto de brincadeiras de manhã.

— Se você fosse esperta aproveitaria o bom humor dele para se deixar contagiar e ficar melhor mais rapidamente. Mas, ao contrário, você quer fazê-lo ficar mal como você.

— Eu quero que ele pare de fazer piadas de manhã…

— Você o ofende gravemente. Percebi que um ódio estranho se apodera de você, aí você procura a pior coisa ao seu alcance, qualquer assunto que poderia deixa-lo muito mal.

— Sim, eu faço isso mesmo.

— Eu posso comparar o que você faz da seguinte forma: alguém faz cócegas em você, tentando fazê-la sorrir, e você dá uma facada na pessoa.

— Que exagero!

— Mas é por aí, nesses momentos ele tem vontade de desaparecer do mapa, ir para o lugar mais distante possível de você. É isso que você quer?

— Nessas horas pode ser.

— Aí se ele for mesmo embora você morre de desgosto, não dura uma semana.

Nesse momento começaram as pancadarias nas portas e janelas da casa.

CAPÍTULO 26 – O HELICÓPTERO

Ana e Dina ficaram escutando o que os policiais conversavam fora da casa, depois que perceberam que não poderiam entrar no imóvel.

— Vamos ter que pedir ordem judicial e explodir uma parede da casa, é a única forma de entrar, pelo jeito estas portas e janelas são feitas de um material inquebrável.

Outro policial concluiu:

— Sim, faremos isso, mas vamos deixar policiais vigiando a casa para que a ré não possa fugir daqui.

Ana não estava acostumada com esse palavreado:

— Eles chamaram você de ré, Dina, que horror.

— É o que eu sou nesse momento, mas por pouco tempo. Veja agora, eles vão tentar ir embora mas não vão conseguir.

Nesse instante começou um alarido de vozes em torno do helicóptero.

— Não está funcionando, não tem nenhum sinal elétrico para ligar, estamos presos aqui — disse um dos policiais.

— O pior é que não tem como escalar esses muros com essa maldita cerca elétrica em cima dele.

— Vamos ter que solicitar o resgate com outro helicóptero e amanhã voltaremos com a ordem para explodir a casa e com os mecânicos.

Vinte minutos após solicitarem apoio pelo rádio, outro helicóptero começou a sobrevoar a casa. Ana e Dina viram os policiais subindo por uma corda e indo embora.

— Pronto — gritou Dina, eufórica. Já podemos ir!

— Como assim? — perguntou Ana. Os policias estão lá fora, vigiando a casa.

— Vamos sair voando. Por isso falei que nosso passeio seria pelo céu…

CAPÍTULO 27 – ALÇANDO VOO

Ao saírem no quintal, Ana falou:

— Você me desculpe, mas não vou entrar nesse negócio aí, principalmente porque está com defeito.

— Não está com defeito nenhum, eu bloqueei a parte elétrica do helicóptero para ele não funcionar. Agora estou desbloqueando.

— Você faz isso com a força da mente? — perguntou Ana, assombrada.

— Sim, você pode aprender também.

— Não quero aprender esse tipo de coisa não, parece bruxaria.

Elas entraram no helicóptero e Ana foi logo perguntando.

— Mas você sabe pilotar essa coisa?

— É claro que eu sei, eu sei fazer qualquer coisa. Se não souber aprendo na hora.

Ana parecia aterrorizada:

— Dizem que errando é que se aprende. Na aviação não são aceitos erros, você vai errar e nós vamos morrer.

Nesse momento o motor do helicóptero ligou.

— Coloque o cinto de segurança, Ana, vamos subir.

— Mas Dina, os policiais vão atirar em nós!

— Não se preocupe, eles não sabem o que está acontecendo. Não iriam atirar no helicóptero da própria polícia.

— Pode ser, mas…

— Esses policiais que estão aí fora não são os mesmos que estavam aqui no meu quintal, eles vão achar que o helicóptero foi consertado e está retornando para a base.

O helicóptero subiu e Ana sentiu todo o seu corpo tremer com a adrenalina.

— Que loucura isso, Dina, nunca pensei que fosse fazer um passeio desses. Para onde vamos?

— Vou mostrar para você as Cataratas do Iguaçu vistas do céu.

Depois de algum tempo elas estavam sobrevoando as cataratas.

— Veja, Ana, aí está um dos mais lindos patrimônios naturais da humanidade, que faz parte das sete maravilhas da natureza.

— É espetacular, Dina, obrigado por me proporcionar tudo isso.

Elas sobrevoaram a usina de Itaipu, construída entre dois países e viram os turistas no Parque Nacional do Iguaçu. As exclamações de ambas se multiplicavam, mas foram quebradas por uma observação de Ana:

— Dina, você me criticou por deixar o chuveiro ligado, prejudicando financeiramente meu marido. Mas você está prejudicando o Estado, usando combustível que não nos pertence para fazer uma viagem particular.

Dina não se deixou abalar e respondeu:

— Comigo é diferente porque não estou usando o combustível do helicóptero, ele ficará intacto. Uso um sistema desconhecido na terra, onde os elementos se modificam e um líquido continua se recriando enquanto é usado.

— Não estou entendendo.

— Vou deixar o tanque do helicóptero cheio, na verdade o combustível que tinha nele não daria para fazermos essa viagem.

— Você consegue fazer com que o combustível nunca acabe?

— Exatamente.

Ana continuou fazendo objeções:

— Mas você está usando um bem público que poderia estar sendo utilizado para algo importante no combate ao crime. Isso também é errado…

— Seria se ele tivesse que ser usado hoje. Os dois helicópteros da polícia da nossa cidade só são usados em operações especiais e não tinha nada disso marcado para essa semana.

— Mas e se uma dessas operações precisar ser realizada repentinamente?

— Foi o que aconteceu, eles levaram o helicóptero para uma operação na minha casa. Estou apenas usando-o num momento em que ele estava à disposição para ser usado com relação a mim mesma.

— Nossa, Dina, você tem resposta para tudo. Tudo bem, senhora dona da verdade.

— Obrigada, Ana, esse título se encaixa bem para mim…

Elas riram e começaram a retornar do passeio. Dina completou:

— Seja como for, Ana, esse helicóptero tinha um defeito de fábrica que poderia fazer com que ele caísse a qualquer momento.

— Mas você não está nos colocando em risco, viajando em uma aeronave com defeito de fábrica?

— Eu consertei — respondeu Dina. E completou:

— Por isso não me critique por estar usando esse helicóptero por algumas horas.

Dina ficou olhando para um ponto no céu, como se visualizasse uma cena, e falou:

— Nós salvamos algumas vidas.

CAPÍTULO 28 - A IDENTIDADE

Enquanto retornavam Dina resolveu dar mais algumas voltas e conhecer outros pontos do Brasil.

— Estamos adiantadas mais ou menos duas horas — disse ela.

— Adiantadas para o que especificamente? — perguntou Ana.

— Deixei meu carro num lugar estratégico, não podemos voltar para casa de helicóptero.

— Você vai abandona-lo na rua?

— Vou deixa-lo onde será facilmente encontrado pela polícia. E voltaremos tranquilamente…

Nesse momento Ana interrompeu:

— Tenho uma dúvida: quem são seus pais?

Dina ficou pensando por alguns segundos, até que falou:

— Não me faça perguntas difíceis, Ana.

— Eu gostaria de saber, curiosidade apenas. Posso ver sua carteira de identidade?

— Tudo bem sua curiosa. Pode ver.

Dina tirou do bolso seu documento e entregou para Ana, que leu em voz alta:

— Naadiya de Deus. Filiação: Divino de Deus e Deusdete de Deus. O que é isso?

— Eu tinha que colocar alguma coisa aí…

— Mas isso é ridículo. Seu pai se chama Divino de Deus?

— É um nome fictício, Ana, como um pseudônimo que os artistas usam.

— Para mim isso é falsidade ideológica. E o número do RG, é válido pelo menos?

— É um número que não estava em uso.

— Dina, você está me parecendo uma grandessíssima charlatona.

— Opa, espere um pouco, sem ofensa — gritou Dina.

— Mesmo que você fosse realmente um anjo, anjos não comentem pecados?

— Os anjos não podem cometer pecado, se cometer é expulso e se transforma imediatamente em demônio.

— Mas você faz cada uma… como ainda não se transformou? — disse Ana dando uma gargalhada.

— Os pecados dos anjos são diferentes dos humanos. Por exemplo, um anjo não pode ter fé, como os humanos, devido ao conhecimento que ele tem.

— Mas qual o tipo de pecado um anjo pode cometer então?

— Um anjo não pode confrontar a Deus, como os humanos fazem. Vou dar um exemplo: Se um anjo escrever: “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes, em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçando nos céus”, ele é expulso imediatamente. Mas para os humanos isso é normal, faz parte da busca de Deus.

— Muito interessante. Quer dizer que você pode criar um falso documento de identidade que não é pecado.

— No meu caso, não! Se fosse eu já não estaria aqui. Mesmo porque eu precisava me matricular naquela escola para ajudar você, e não poderia fazer isso sem um documento.

— Mas e se um ser humano fizer isso, criar um falso documento?

— Depende do caso. Se for por necessidade absoluta, para salvar uma vida, entendo que não seja pecado. Seria pecado se fosse feito para enganar pessoas, obter benefícios próprios, praticar crimes.

— Interessante…

— Mas não sou especialista em pecado, essa não é minha área. Portanto, não tome minhas palavras como regra.

— Até que faz sentido. — disse Ana, pensativa.

CAPÍTULO 29 – AUTO SABOTAGEM

— Mudando de assunto — disse Ana — estou um pouco preocupada com nossas finanças.

— Pode ficar sossegada, as finanças da sua casa estão sob controle.

— Mas meu marido falou esses dias para a gente gastar menos e…

— Aquilo foi momentâneo, ele explicou mas você não ouviu, ficou falando junto com ele…

— Fiquei muito nervosa, eu me sinto um peso às vezes…

— Você não devia ter agido daquela forma, agora você nunca irá saber como estão as finanças da casa. Ele não vai falar mais nada porque sabe que você fica mal.

— Por que ele falou aquilo então?

— Na verdade ele procura ser controlado financeiramente, então se em um mês os gastos extrapolaram, ele procura controlar, para não chegar nesse ponto que você está com medo de estar.

Ana não sabia o que falar. Dina continuou:

— Você deveria ter dito simplesmente: “Tudo bem, vamos gastar menos”. Mas do jeito que você fez, estendendo um desentendimento por várias horas, chorando, falando coisas absurdas, você não vai mais ter acesso à informação a respeito das finanças dele. Foi isso que você conseguiu.

— Fui uma burra então…

— E como foi. Você já tinha feito isso com relação às gravações musicais que você faz. Você percebeu que de um tempo para cá ele sempre fala que está bom?

— Sim, mas pensei que é porque eu estou cantando melhor…

— Você está cantando melhor, sim, mas como você briga quando ele fala que não ficou bom, ele prefere sempre falar que está bom.

— Que horror! Ele mente para mim então.

— Sim, prefere mentir do que brigar.

— Ele está sendo falso…

— Mas a culpa disso é sua. Se ele falasse que uma gravação não ficou boa e você compreendesse, apenas procurasse melhorar, ele continuaria falando o que realmente achou.

Ana começou a chorar. Dina gostava de aproveitar esses momentos de fraqueza para levar seu oponente ao nocaute:

— Uma vez que ele fez uma crítica construtiva em uma gravação sua, você começou a esbravejar e chegou a falar que ele estava falando aquilo porque tinha inveja de não cantar tão bem como você…

— Sim, eu falei isso uma vez…

— Ele com inveja de você… Que blasfêmia. Vou te falar uma coisa: Existe uma coisa que se chama inteligência musical. A dele está a milhões de anos-luz da sua. Não estou dizendo que você não cante bem, mas seria como comparar uma criança de terceiro ano primário com um professor de universidade. Essa é a comparação que faço entre vocês dois, musicalmente falando.

— Você está cada dia mais exagerada. Mas o que eu faço agora? Como vou saber se uma gravação ficou boa ou não?

— Aconselho você a perguntar para outras pessoas. Apesar que muitas amizades serão desfeitas, se as pessoas forem sinceras…

— Você está falando que eu canto mal…

— Você não canta mal, mas pode cometer alguns erros, até os grandes cantores profissionais erram, por que você não pode errar? Só que com você existe um problema: ninguém pode falar que você errou…

— Realmente, eu sou assim mesmo, eu sou uma burra…

— Você se auto sabotou, você tirou de si mesma a possibilidade de saber como estão as finanças da sua casa e saber como ficaram suas gravações.

— O que eu faço agora? — perguntou Ana, aparentando um grande desespero.

— Sei lá — respondeu Dina. — Continue brigando quando alguém te conta alguma coisa importante. E aproveite para enfiar a cabeça em um buraco, como as avestruzes fazem. Quem sabe assim você se livre dos seus problemas.

Ana revirou os olhos:

— Não fale mais comigo, quero que me deixe em casa.

CAPÍTULO 30 – O ASSALTO

Depois de dez minutos sem falar nada, Ana resolveu abrir a boca:

— Você viu que estamos sendo observadas do solo?

— Sim — respondeu Dina. Tem um carro de polícia tentando nos acompanhar.

— Mas por que você está indo tão devagar?

— Porque eu quero que eles nos sigam, para ver onde vamos deixar o helicóptero.

— Mas nesse caso eles vão tentar prender você… ou nós duas…

— É claro que vou ficar à frente deles. Manterei distância de pelo menos quinze minutos, para dar tempo de chegar ao meu carro.

Alguns minutos depois o helicóptero pousou num local descampado. Elas desceram correndo, atravessaram um matagal e chegaram onde estava o carro de Dina.

Porém, quando elas foram entrar no carro apareceu um assaltante armado, gritando:

— Passem as bolsas rápido, se não quiserem morrer!

Antes que Ana tivesse tempo de entregar a bolsa dela, Dina falou para o assaltante:

— Pode atirar em nós se quiser, não vamos te dar nada.

O bandido, extremamente nervoso, apontou a arma para a cabeça de Dina, falando:

— Última chance, moça, passe a bolsa agora, senão vou atirar!

Dina respondeu, calmamente:

— Atire de uma vez, não tenho tempo a perder com você. Vamos, Ana, entre no carro!

Nesse momento o assaltante tentou atirar várias vezes e a arma não funcionou. Dina olhou para ele e falou:

— Pegue esse cartão, aí tem meu telefone. Ligue para mim daqui a uma semana. Não adianta ligar antes. Se você conseguir me convencer que nunca mais vai roubar eu curo a sua cegueira.

— Que cegueira, ficou maluca sua…

O bandido não conseguiu terminar a frase e começou a gritar:

— Não vejo nada, o que está acontecendo?

 Vamos embora  disse Dina.  A polícia já achou o helicóptero, temos que sair logo daqui.

Elas se afastaram com o carro e por algum tempo puderam ouvir os gritos do assaltante:

— Me ajuda aqui, como eu vou voltar para casa? Socorro…

Dina viu que Ana ficou incomodada com aquilo e falou:

— Está com dó dele? Saiba que se eu fosse uma pessoa normal estaria morta a essa altura. Eu só deixei ele cego. Pelo menos assim ele não vai conseguir assaltar ninguém.

— Tudo bem, Dina, você livrou a humanidade de um crápula.

— Exatamente! Ele vai me ligar em breve, quem sabe eu o cure.

— Eu duvido muito que ele vá deixar a malandragem — disse Ana, pensativa.

— Eu também duvido — concordou Dina, com tristeza.

CAPÍTULO 31 – A ABORDAGEM

Depois que elas andaram uns cinco quilômetros viram que estavam sendo seguidas por uma viatura policial.

— Eles nos acharam! — Gritou Ana.

— Não, eles não sabem quem está nesse carro. É a polícia rodoviária que está atrás de nós. Acontece que esse veículo não tem placas, por isso estamos sendo seguidas.

— Você não colocou placas no seu carro? Como você tem coragem de andar em um carro assim?

— Como vou emplacar um carro que não existe na terra?

— Não acredito! Que carro é esse, Dina?

— Nós o montamos rapidamente, ele só vai ser usado de vez em quando, em casos de grande necessidade, como agora.

— Nós quem? — perguntou Ana, impaciente.

— Eu e meus amigos. Tentamos fazer o mais parecido com os carros da terra. Mas não é só placa que esse carro não tem.

— O que mais essa geringonça não tem?

— Ele não tem motor como os carros terrenos. O motor é isso aqui…

Dina apontou para um aparelho quadrado, de aproximadamente quinze centímetros de diâmetro, que estava em cima do painel.

— Isso é o motor?! — exclamou Ana.

— Sim. O melhor é que ele não precisa de combustível.

— Mas não tem nenhum fio ligado nele, como as rodas obedecem a isso?

— É tudo via ondas…

Dina não conseguiu terminar sua explicação sobre o funcionamento do carro, pois a viatura de polícia cortou a frente dela e a obrigou a parar.

Dois policiais marrudos desceram gesticulando:

— Quero ver sua habilitação e os documentos do veículo.

— Tudo bem senhor policial? Eu não tenho habilitação e esse carro não tem documentos.

— Então vou ter que apreender o veículo e leva-las para a delegacia…

— Vou ter que recusar o convite — interrompeu Dina.  Minha amiga aqui precisa chegar urgentemente na casa dela.

— Tudo bem, Dina, posso chegar mais tarde…

Dina balançou a cabeça. Nessa hora um policial ordenou:

— Desçam do carro e se virem para serem revistadas.

— Não vamos descer, senhor policial, como já falei estamos com pressa. Por favor, tire essa viatura do nosso caminho.

Os dois policiais imediatamente sacaram suas armas e apontaram para Dina, falando energicamente:

— Desçam imediatamente! Vamos! Agora!

— Já falei que não vamos descer. Se forem atirar, façam isso logo.

Os dois policiais tentaram atirar ao mesmo tempo, mas como no caso do bandido, as armas deles não funcionaram.

— Você não vai deixa-los cegos, né Dina — pediu Ana.  Eles estão só trabalhando…

— Não vou fazer isso, não. Só vou deixa-los sem poder andar até que já estejamos bem longe daqui.

Os policiais tentaram se mover, mas seus pés não saíram do chão.

— Não consigo tirar meus pés do chão! — gritou um deles.

— Eu também não consigo  disse o outro.  O que está acontecendo?

Dina então falou:

— Senhores, peço desculpas pelo mau jeito, mas daqui a pouco vocês vão conseguir sair daí. Por hora vou empurrar um pouquinho o carro de vocês para poder passar.

Dina desceu do carro e com as mãos empurrou a viatura policial, ante os olhos assombrados de Ana e dos dois policiais.

Feito isso ela entrou no carro e saíram dali.

— Como você fez aquilo, você é uma mulher biônica? — perguntou Ana, admirada.

— Você não faz ideia dos meus poderes! — respondeu Dina, sorrindo.

CAPÍTULO 32 – O FINAL DO PASSEIO

Dina parou o carro em frente à casa de Ana e lhe entregou um pedaço de papel, dizendo:

— Esse é o meu novo endereço…

— Você mudou de casa? Como fez isso enquanto estávamos no helicóptero?

— Eu não posso mais morar naquela casa, não vão me dar sossego lá. Meus amigos fizeram tudo para mim.

— Quem são esses seus amigos misteriosos, Dina?

— Eles são como eu, somos da mesma ordem de criação. Mas só aparecem por aqui quando eu os chamo.

— Em quantos eles são?

— São muitos, tenho milhões de amigos. Mas geralmente eles vêm em grupo de quarenta.

— Quarenta amigos? Eles não chamam atenção andando em grupo assim?

— Eles conseguem se locomover sem serem notados, são muito espertos.

— Se forem como você são espertos mesmos. Nunca conheci ninguém com seus poderes.

— Obrigada, Ana. Não elogie muito que eu posso acreditar que é verdade.

— Você não acredita que é verdade?

— Foi só uma brincadeira, eu sei exatamente quem eu sou. Sei das minhas possibilidades e fraquezas.

— Não sabia que você tinha fraquezas, parece ser tão perfeita.

— Tenho fraquezas sim, já ouviu aquele ditado: perfeito só Deus?

— Sim, Dina, já ouvi. Tudo isso é muito estranho, mas depois conversamos melhor. Vou entrar pois estou cansada.

— Tudo bem, boa noite!

— Ah, preciso dizer que esse foi o dia mais incrível da minha vida  disse Ana, sorrindo.

— Que bom, Ana! Eu não posso dizer o mesmo, pois já tive dias bem mais movimentados e interessantes que esse.

— Acredito que sim, amiga — concordou Ana.

— Passe em minha nova casa amanhã para conhecê-la. Não é longe daqui e podemos ir de lá para o curso.

— Você vai no curso amanhã? A polícia pode aparecer por lá e…

— Amanhã eles não vão, pode ficar sossegada.

— Como você sabe disso?

— Eu simplesmente sei. Seja como for vou começar os preparativos para provar minha inocência.

— Você precisa da minha ajuda para isso?

— Não, Ana, agradeço, não vai ser necessário.

— Tudo bem, então…

— Na verdade vai ser muito fácil  concluiu Dina.

CAPÍTULO 33 – A NOVA CASA

Ana chegou no endereço que Dina lhe deu e tocou a campainha.

— Pode entrar — gritou Dina da janela, abrindo o portão com o controle remoto.

— Como seus amigos conseguiram transferir sua casa para cá? — perguntou Ana, admirada.

— Eles não transferiram, só modificaram algumas partes dessa.

— Mas são os mesmos móveis, tudo é igual…

— São outros móveis. Venha aqui, vou te mostrar uma coisa…

Dina ligou um aparelho de televisão que estava na sala. Apareceu a imagem em tempo real da sua antiga casa.

— Você está filmando o interior da outra casa? Como está fazendo isso?

— Tem algumas câmeras ocultas lá e consegui transferir a imagem para cá.

— Eles estão vasculhando tudo — disse Ana, admirada.

— Mas não vão encontrar nada contra mim, exceto a bolsa da professora que ficou no quintal, no mesmo lugar onde foi jogada.

— Como eles conseguiram passar por aqueles portões inquebráveis?

— Meus amigos retiraram o material resistente. Nem foi preciso arrombar, estava tudo destrancado hoje de manhã.

Os policiais falavam palavrões o tempo todo, referindo-se a Dina com os piores termos possíveis.

— Você não pode processa-los assim que provar sua inocência? Estão denegrindo sua imagem…

— Não vou fazer isso, eles estão só trabalhando. Além disso, esses palavrões fazem parte do mecanismo de defesa deles.

— Desculpe minha ignorância, Dina, mas não entendi.

— Quanto mais palavrões eles falam, mais homens eles se sentem. Veja aquele à esquerda da tela, vociferando as maiores arrogâncias, ele se sente o macho alfa…

— Mas isso é uma bobeira, porque vomitar palavrões vai fazer alguém ser mais homem?

— Realmente, você usou a palavra certa, isso é uma bobeira da humanidade. Tem gente que precisa falar palavras de baixo calão para se sentir forte e inteligente.

Ana mostrou que estava preocupada:

— Você vai mesmo querer ir no curso hoje? Pensei nisso a noite toda, estou cansada de ver a cara de policiais.

— Vamos sim, como já falei, preciso começar os preparativos para provar minha inocência.

— Ok, vamos lá então — assentiu Ana, e concluiu:

— Quero ver isso!

CAPÍTULO 34 – AS PROVAS

Acredito que nem seja necessário descrever a cara que a professora Claudete fez quando viu Dina toda sorridente sentada na costumeira terceira carteira.

— Você está aqui de novo? Pessoal, temos uma fugitiva da cadeia em nossa sala de aula. Vou ligar agora para a polícia…

Todos os alunos se entreolharam. Um deles falou:

— Vai começar tudo de novo…

Mas o que eles viram logo após foi a professora balançando os braços nervosamente, como se aquilo fosse fazer seu telefone celular funcionar.

— Porque essa #*@ não funciona? Eu coloquei crédito hoje de manhã. Alguém pode me emprestar seu telefone?

Um aluno magro e feio, que ostentava uma cara perene de choro correu até a professora e lhe entregou seu celular.

— Obrigada, Artur!

— Por nada professora — falou ele com sua voz fanhosa.

— Seu telefone também não está funcionando, Artur. Pessoal, por favor, verifiquem seus telefones e me emprestem algum que esteja funcionando.

Nenhum telefone funcionava, exceto o da Dina.

— O meu está funcionando, professora, quer usa-lo? Só não dá para ligar para a polícia, pois eu bloqueei o número deles. A última coisa que quero ouvir na vida é a voz de um policial de novo.

— Insolente! Vou usar o telefone fixo da escola na secretaria. Pessoal, não vão embora, já volto.

E, voltando-se para a classe:

— Ah, por favor, não deixem essa… foragida… sair daqui.

Cinco minutos depois a professora voltou.

— O telefone da secretaria também não está funcionando. Deve ser um problema geral. Vou de carro até a polícia.

— Professora — gritou Dina. — A senhora não pode fazer isso, os alunos pagaram pelo curso, é melhor a senhora deixar para ir na polícia depois da aula.

— Não, eu vou agora mesmo e…

— Acho que antes de ir a senhora deveria ver isso — disse Dina, com ar de mistério.

Caminhando até um aparelho de televisão que estava no canto da sala, Dina ligou-o e começaram a aparecer algumas imagens.

— É o Artur! — Gritou um dos alunos.

— Sim! — concluiu Dina. — É o Artur, que foi fazer um favor para a professora, jogando sua bolsa por cima do muro da minha casa.

— Artur! — gritou a professora. — Eu não falei para você verificar se não tinha câmera na casa dela ou na vizinhança?!

— Eu verifiquei, professora — respondeu Artur. — Não tinha nada.

— Vocês já ouviram falar de “câmera escondida”?   disse Dina.  Eu escondo muito bem as minhas câmeras.

— Sua vaca, eu vou matar você — rosnou a professora.

— Acho melhor nem tentar — respondeu Dina. — Da última vez a senhora quase se matou. A propósito, sua mão está melhor?

— Vou dizer que essas imagens são manipuladas. Você não conseguirá provar nada.

Dina balançou a cabeça, falando:

— Além dessas imagens, tenho a gravação dessa conversa que tivemos agora, onde a senhora e o Artur confessaram tudo. E, também, tenho a classe inteira de prova. Acredito que pelo menos dez dos colegas aqui presentes aceitariam testemunhar a meu favor. Muita gente não suporta injustiça…

Nesse instante Artur teve um ataque de histeria e começou a chorar copiosamente.

— Eu sabia que isso ia dar errado, agora estou f…

A professora também começou a passar mal, sua pressão caiu e ela cambaleou em volta da mesa. Mas ninguém foi acudi-la.

Depois que Claudete melhorou um pouco Dina falou:

— Eu tenho a solução para tudo isso. A senhora e Artur vão até a polícia e confessam tudo o que fizeram, para limpar a minha barra. Se fizerem isso eu não processo a senhora por danos morais.

— Você vai me processar? — disse a professora, ameaçando chorar.

— Só se vocês dois não forem na polícia contar toda a verdade.

— Eles podem nos prender e…

— Não vão prendê-los, não, falsa noticia de crime para pessoas sem passagem pela polícia vai dar no máximo prestação de serviços à comunidade. Isso vocês vão tirar de letra.

— Eu nunca vou fazer isso! — Gritou a professora.

— Então eu vou entrar com um processo por danos morais. Só adianto que vou pedir um valor muito alto, visto que a senhora tem uma gorda conta bancária, três imóveis e aquele anel de diamante que “ganhou” de uma amiga quando morava em Minas Gerais.

Ao falar a palavra ganhou Dina fez aquele sinal de aspas, deixando claro que sabia que tinha acontecido algo diferente de “ganhar”.

— Tudo bem, tudo bem! — concordou a professora.  Nós vamos na polícia depois da aula e…

Claudete não conseguiu terminar a frase, pois desmaiou caindo sobre a mesa.

— Mais um dia sem aula — lamentou uma aluna na primeira fila.

CAPÍTULO 35 – ONISCIÊNCIA

Na saída do curso Ana perguntou para Dina, enquanto caminhavam rumo às suas casas:

— Como você sabe todas essas coisas, Dina? Você é onisciente?

— É claro que não…

— Então você foi até Minas Gerais para investigar a vida pregressa da professora?

— Não foi preciso ir pessoalmente, meus amigos me ajudaram.

— Você pode me apresentar seus amigos?

— Não dá, você não conseguiria vê-los, eles são invisíveis.

— Não são amigos imaginários, Dina?

— Amigos imaginários não bloqueiam telefones e travam armas. Eles são tão reais quanto nós.

— Pensei que você fizesse tudo sozinha  disse Ana, aparentando estar decepcionada.

— Posso fazer sozinha, mas não é aconselhável em casos muitos importantes, como quando envolve armas de fogo. É como no caso da aviação: um piloto pode voar sozinho, ele consegue, mas é aconselhado ter sempre o co-piloto com ele.

— Entendi — disse Ana, demonstrando impaciência. — Seus amigos são anjos. Que incrível…

— O mais incrível nisso tudo não são os anjos que você não vê. Sou eu, que você está vendo!

— Como assim?

— Não é fácil para um anjo assumir uma forma visível como a minha. É uma tarefa hercúlea fazer isso.

— Já li livros onde os anjos assumem aparência humana. Até mesmo na Bíblia tem algo assim.

— Assumir a aparência humana por alguns instantes não é o problema. O difícil é assumir uma identidade, participar da vida das pessoas, tudo isso que eu estou fazendo.

Ana pensou um pouco:

— Dina, você está quase me convencendo que é realmente um anjo.

— Se eu não fosse um anjo, como faria as coisas que tenho feito?

— Sei lá, com a tecnologia atual é possível fazer muita coisa. Além disso, depois que inventaram o avião eu não me surpreendo com mais nada.

— Pois é a verdade…

— Vamos partir do pressuposto que você seja realmente um anjo — argumentou Ana. — Você não deveria manter isso em segredo? Por que me contou?

— Eu não pretendia manter isso em segredo, a não ser pelo tempo que fosse necessário. Na verdade, eu gostaria de ter te contado no dia que nos conhecemos.

— Mas as outras pessoas não podem saber, presumo…

— Não faz mal se souberem, mesmo porque não iriam acreditar. Você mesma, vendo tudo que eu já fiz, acabou de dizer que está “quase acreditando” que eu sou um anjo. Imagine as outras pessoas.

— Tenho uma dúvida, Dina: os anjos não têm coisas mais importantes para fazer do que tentar ajudar alguém a melhorar seu casamento?

— Temos sim, isso é só uma pequena parte da nossa missão. Não se sinta a melhor bolacha do pacote, Ana.

— O que mais tem nessa missão? — perguntou Ana. — Agora fiquei curiosa.

— Você sabia que eu não durmo?

Ana ficou olhando para Dina com cara de boba, sem saber o que dizer.

— Eu não sabia disso… — balbuciou ela.

— Mas não pense que a missão relacionada a você é fácil. Ela é mais difícil que muitas missões aparentemente mais complexas que realizamos por aí, porque não depende só de nós. Tanto que eu estava quase desistindo de você não faz muito tempo.

— Não entendi muito bem  disse Ana, fingindo não dar muita importância para o que estava ouvindo.

— Muitas coisas dependem somente de nós, então vamos lá e fazemos o que é preciso fazer. Agora, tem coisas que dependem das pessoas entenderem e agirem. Quando não depende de nós e sim de terceiros, a missão é muito mais difícil.

— Quanto a mim você não precisaria ter vindo, eu estava me virando bem por aqui…

— Viu porque é difícil? Você acha que está sempre certa, não tem noção das coisas que faz e não faz ideia do que iria acontecer se não fosse a minha intervenção.

Ana não perdeu a oportunidade de ser irônica:

— Se você está falando…

CAPÍTULO 36 – O TIRANO

Antes de ir embora Ana perguntou:

— Não entendi uma coisa, Dina. Se vocês anjos têm missões importantes, porque você resolveu fazer aquele passeio de helicóptero comigo ontem. Foi muito agradável… Nossa! Foi maravilhoso… Não tenho palavras… Mas a meu ver não foi nada prático.

— Aquele passeio estava nos nossos planos — disse Dina, secamente.

— Não entendi, poderia me explicar?

Dina se mostrou impaciente, parecia não querer falar daquele assunto. Por fim resolveu falar:

— Daqui a 60 anos uma eleição presidencial vai ser particularmente importante no Brasil. Digo importante, mas, na verdade, seria ainda mais importante que as demais.

— Certo… E o que isso tem a ver com o nosso passeio?

— Teríamos que consertar o helicóptero em pleno voo e a polícia não o usava o tempo suficiente para fazer esse serviço, só faziam voos curtos, devido ao preço do combustível.

— Então esse passeio não foi para me proporcionar uma tarde agradável, mas sim para consertar o helicóptero?

— Conseguimos conciliar as duas coisas…

— Ok, eu já devia saber que não sou tão importante assim.

— Claro que você é importante, Ana. Se não fosse eu não a levaria junto. Mas a verdade é que esse helicóptero ia cair da próxima vez que levantasse voo, causando cinco mortes.

— Acho que entendi. O futuro presidente iria morrer nesse acidente. Ou o futuro pai dele, ou a mãe, sei lá…

— Tem coisas que não é fácil de falar, Ana, você não entenderia, aliás ninguém entenderia…

— Por que? Não me deixe assim curiosa…

— Nós salvamos a vida de um homem cujo futuro filho será o único capaz de impedir a vitória daquele que seria o maior tirano da história desse país, que iria causar a morte de mais de 30% da população com suas loucuras bélicas.

— Acho que estou entendendo. Esse homem que é objeto da atenção de vocês é o que será o presidente, aquele que ganhará as eleições derrotando o tirano.

— Não, Dina. Esse homem é quem irá assassinar aquele que seria considerado na história como o “Hitler brasileiro”. Ele fará isso alguns dias antes das eleições.

— Que horror! Vocês estão salvando um assassino?

— Por isso é difícil falar desses assuntos com as pessoas, o falso moralismo humano atrapalha tudo.

Ana foi embora pensativa, mas particularmente feliz. Afinal de contas ela devia ser o único ser humano do planeta que sabe desse fato futuro.

— A menos que Dina tenha outras amigas como eu — pensou.

CAPÍTULO 37 – SURREAL

No dia seguinte Ana apareceu bem cedo na casa de Dina. Assim que entrou ela começou a falar:

— Não consegui dormir essa noite pensando em tudo que tem acontecido. Preciso de algumas respostas senão vou pirar…

Dina já esperava por algo assim.

— Pode perguntar, Ana, o que estiver ao meu alcance eu responderei.

— Tenho dezenas de perguntas…

— Então vamos dividir isso em capítulos — brincou Dina. — Que tal duas perguntas por dia?

Ana não conseguia mais ficar nessas preliminares, portanto falou à queima roupa:

— Você consegue ficar invisível?

— Não — respondeu Dina. — Segunda pergunta?

— Espere um pouco, Dina, não é para responder apenas “sim” e “não”.

— Tudo bem, Ana, eu não consigo ficar invisível, ou seja, não consigo desaparecer se estou nessa forma que você está vendo agora. Mas consigo bloquear o cérebro das pessoas para que não me vejam.

— Então você consegue ficar invisível, você mentiu para mim.

— Se eu conseguisse ficar invisível tudo seria mais fácil para mim. Não funciona assim. Eu tenho que bloquear as pessoas que eu não quero que me vejam. Se for um grande número de pessoas preciso da ajuda dos meus amigos.

— Mas de qualquer forma você fica invisível.

— Se alguma pessoa presente não for bloqueada eu estou ali, visível a ela.

— Tudo bem, passemos à segunda pergunta.

— Manda lá…

— Como você consegue colocar imagens em aparelhos de televisão e monitores de computador sem colocar nenhum periférico, como CD, pendrive, etc.

— Você já ouviu falar de Bluetooth? Funciona mais ou menos igual, só que tudo sai da cabeça de um anjo.

— Pode explicar melhor isso? — Pediu Ana.

— Eu não consigo fazer tal coisa, tem anjos especializados nisso. Esses anjos podem olhar uma cena e memoriza-la perfeitamente, e depois transferi-la para qualquer aparelho.

— Isso é totalmente surreal! — Admirou-se Ana.

— E já existe há milhões de anos. Aqui na terra só está sendo usado recentemente, desde que surgiram os aparelhos de televisão e os computadores.

— Como funciona isso? É loucura…

— Os anjos que possuem o poder de memorizar as cenas precisam aprender o funcionamento do aparelho em questão. Assim que eles conseguem dominar o aparelho, compreendendo seu funcionamento, transformam o sinal mental para que seja compatível com tal aparelho.

— Isso é demais para a minha cabeça…

— Na verdade tudo é mais ou menos a mesma coisa, são sinais elétricos que só precisam ser sutilmente modificados para cada ocasião.

— Que coisa maravilhosa. É possível um ser humano aprender a fazer isso?

— Não posso dizer que não seja possível, mas eu, particularmente, não acredito que alguém possa fazê-lo. Na verdade eu acredito que seja impossível.

— Agora você viajou, Dina, é possível mas não é possível?

— Eu acredito que não é possível, mas já vi pessoas fazerem cada coisa que não dá para duvidar de mais nada.

— Entendi, quer dizer que é possível…

— É mais ou menos assim: você acredita que um ser humano possa sair voando até as nuvens sem usar aparelho tecnológico nenhum? Você dirá que não. Eu também diria que é impossível se não tivesse visto acontecer.

— O que?! Alguém já fez isso?

— Sim, já aconteceu duas vezes na história da humanidade.

— Dina, você está falando de Jesus Cristo…

— Não, Jesus não conta pois ele é Deus. Estou falando de pessoas comuns.

— Tudo bem, se você está falando vou acreditar.

— Então encerramos por aqui sua cota de perguntas diárias — decretou Dina.

— Só mais uma, por favor. Como você consegue…

Dina interrompeu bruscamente:

— Você viu como o dia está lindo hoje?

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