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A Planta Sideral

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Uma planta do outro mundo…

Quando tudo começou tive a impressão que se tratava de um sonho cor de esperança.

A realidade, porém, era bem diferente e vinha caminhando ao meu encontro.

Visualizei uma criatura que andava de um lado para o outro, aparentemente sem rumo, e me olhava como se quem estivesse em desarmonia com as leis do universo fosse eu e não ela.

Percebi que se tratava de uma planta, porém livre para se locomover.

Aquele ser vegetal parecia querer se aproximar de mim e depois de vários dias de ensaio ela tomou coragem. 

Apresentou-se como Sidéria, uma planta ao meu dispor.

Conversamos a tarde toda, oportunidade em que ela demonstrou vastos conhecimentos de história geral, da idade média para cá.

Com grande dificuldade consegui que ela me contasse algo sobre si mesma.

Fiquei sabendo que ela nascera ao lado do poço estéril, no meu quintal, e que um dia descobriu o poder de locomoção.

Sidéria me disse que gostaria de encontrar um lugar onde poderia viver em paz, e que o fundo do poço parecia ser o lugar ideal para o seu gosto, por ser bastante úmido.

E foi o que ela fez.

Enquanto morou lá, Sidéria saía de casa muito pouco, e geralmente o fazia aos domingos, para passear.

Subia voando, ganhava a altura das árvores, alcançava as nuvens e, em reviravoltas, desaparecia no azul do céu.

Às vezes Sidéria ia até a cachoeira, para tomar banho.

Quem olhasse para as águas calmas não poderia encontrá-la, pois ela preferia rolar nas correntezas e se deixar cair lá embaixo, sobre pedras que lhe feriam os galhos, para depois ser lentamente arrastada para a margem.

Um dia Sidéria resolveu se exibir, cantando uma melodia horrível, como jamais ouvi igual.

Foi impossível conter o riso.

Percebendo que achei sua voz ridícula, ela ficou toda embaraçada, interrompeu a música, cuspiu no chão e, com o seu característico semblante sério, defendeu-se:

— Saiba que a minha voz é afinadíssima!

 Ela afirmou tal coisa com inabalável orgulho, como se possuísse o tesouro mais precioso do mundo.

Uma vez Sidéria se sentiu tão perdida com as minhas risadas, que resolveu sair da sala.

Trêmula, bateu com muita força as raízes no chão, num brusco movimento que a fez desequilibrar-se e cair comicamente, mas rapidamente levantou-se e, tropeçando nos móveis, saiu resmungando coisas que não pude entender bem, mas que transmitiam a idéia de que iria desaparecer do mapa.

Até que um determinado dia ela desapareceu mesmo.

Vou tentar descrever mais ou menos a sua partida.

Primeiro ela soltou um gemido angustiado, seguido de um forte agitar de galhos.

Então testemunhei toda a sua agilidade numa estranha cena de vôo, quando ela ultrapassou as nuvens em estupenda velocidade.

Analisei o fato detalhe por detalhe e tirei várias conclusões, que apenas me serviram de consolo.

Decidi que o melhor a fazer seria vasculhar o interior de seu lar, o fundo do poço. Mas quando desci até lá senti o mistério aumentar ante meus olhos.

Num canto lamacento encontravam-se diversos livros com gravuras de flores cinzas ou completamente pretas, além de plantas que eu não havia sequer ouvido falar que existiam.

Embaixo de um livro embolorado eu encontrei um caderno de anotações, contendo desenhos de válvulas eletrônicas e cálculos de diversas fórmulas, como a da intensidade de corrente, em amperes, completando a igualdade matemática com a resistência elétrica, em forma de fração.

Saí com forte tontura daquele buraco, sentindo dor de cabeça e dor no estômago, resultado do esforço mental que fiz para descobrir alguma coisa a mais a respeito daquele estranho ser, místico, exótico e transcendental.

Deduzi que eu sempre deveria olhar para o céu, pois qualquer dia eu poderia ver o seu vulto nas nuvens, executando perigosas acrobacias, com suas folhas e raízes esvoaçando ao vento, ou unida a algum bando de gaivotas, fazendo suas perguntas ingênuas, com o único fim de aprender um pouco mais sobre o nosso mundo.

Finalmente, depois de vários meses de ausência, estando eu já desesperado e desolado, recebi uma carta de Sidéria.

Fiquei tão contente que lágrimas densas molharam o chão da sala. Só não gostei da língua que ela escolheu para escrever: francês.

Aliás, era uma mistura, pois também havia palavras em inglês e tupi-guarani, além de trechos em japonês.

Devido à enorme letra a carta totalizava duas páginas e meia, talvez o suficiente para esclarecer tanto mistério.

Entreguei-me então de corpo e alma à tradução, usando vários dicionários, alguns de edição antiga.

Chegou a ser necessário um dicionário grego (andei o dia todo para consegui-lo) e apenas para traduzir uma única palavra.

Deparei-me, finalmente, com a tradução completa, e percebi que em português tudo aquilo era nada mais que três linhas, as quais transcrevo aqui:

“Uma grande quantidade de pessoas está me perseguindo, ainda não sei a razão. Estou na Oceania, ocultando-me de um povo estranho, agressivo e perseguidor, mas chegarei em sua casa no dia 18 de agosto. Até lá.”

Fiquei muito preocupado com Sidéria, ao saber que ela estava sendo caçada como uma assassina.

Coitadinha!

Mas se já estamos no dia 21 de agosto, como ela poderá chegar no dia 18? Comecei a raciocinar e concluí que a causa desse engano da pobre planta deveria ser o sumiço de um calendário da minha coleção, um daqueles antigos, do ano de 1962, que deveria estar sendo o atual dela.

Depois dessas deduções, sentei-me no sofá um tanto nervoso e comecei a recordar-me de um domingo em que Sidéria chegou em casa toda suja e ofegante, muito cansada.

Assustado, perguntei-lhe o que a atacara, adiantando logo se fôra alguma cobra ou alguma vaca do meu sítio.

Ela mal conseguia falar. Deitou-se na minha cama, que estava limpa, e, respirando fundo, dormiu no mesmo minuto.

Embora não gostasse de ver toda a casa e lençóis sujos de lama, deixei que ela ficasse lá, o que ocorreu até o fim de semana.

Quando acordou Sidéria foi direto para o lago, nem me dando tempo de perguntar o que acontecera.

Dias depois a cena repetiu-se, e também dessa vez não consegui arrancar-lhe a explicação.

Toda vez que eu falava sobre o assunto ela se arrepiava toda, ameaçava desmaiar e nada conseguia dizer.

Quem sabe um dia ela me esclareça esse mistério.

Uma semana depois da carta chegaram mais notícias de Sidéria, dessa vez um telegrama.

Dizia que vinha para ficar, revelando-me a hora e os minutos de sua chegada, o ângulo de descida, a velocidade desenvolvida na aterrizagem, enfim, um verdadeiro trabalho técnico.

Chegou a hora…

Olhei para as nuvens que se moviam impulsionadas por forte vento e lá vinha ela em alta velocidade, chacoalhando as folhas para um lado e para o outro, fazendo reviravoltas, oferecendo-me um espetáculo emocionante.

Às vezes Sidéria quebrava a barreira do som, fazendo ressoar um forte estrondo.

Ela desaparecia entre as nuvens, voltava a aparecer, misturava o seu verde-pálido com o azul e branco intensos lá do alto e fazia voar panos, folhas e até algumas pedras da beira do lago.

Assistindo a tudo com muita atenção, notei que ela estava calculando um lugar bom para pousar.

Até que chegou o momento final do espetáculo: a aterrizagem!

Sidéria desceu em linha reta de quase dois quilômetros de altura, mas aproximava-se do chão sem se preocupar em diminuir a velocidade.

A única coisa que eu pude captar foi o baque seco contra o solo.

Ela havia caído no fundo do poço.

Corri até lá para acudi-la mas a encontrei presa ao chão, como todas as outras plantas terrestres ficam.

Estava indiferente e muda, como todo exemplar do reino vegetal.

Sidéria ficou assim por sete dias, tempo no qual eu a reguei regularmente, inclusive por duas vezes coloquei adubo em volta dela.

Quando saiu de lá ela veio conversar comigo.

Nessa oportunidade perguntei-lhe tudo o que tinha direito, como por exemplo o que ela pensava da vida.

A resposta brotou espontaneamente:

 Ora, a vida é isso que estamos vendo, cheia de coisas legais e de seres de várias formas e tamanhos. É isso, não há mais o que dizer.

Sempre atento às suas expressões e gestos, afirmei que não havia compreendido bem a sua resposta.

Sidéria me olhou inibidamente e, impaciente, respondeu:

 Em termos filosóficos, a vida é enxergar o meio ambiente com os olhos da alma e com o coração. É olhar com atenção as dimensões das probabilidades que surgem em nossos caminhos. Mas, acima de tudo, a vida é um sonho que pode terminar a qualquer momento.

Dizendo isso, ela tomou um copo de água e saiu.

Um mês depois da volta de Sidéria eu notei que uma de suas folhas se assemelhava a um diamante, e que, aos poucos, ia adquirindo a cor e o brilho dessa preciosidade.

Um tanto confuso e envergonhado, pedi-lhe aquela folha, que poderia ser a mais rara e valiosa do mundo, mas recebi uma resposta negativa nos seguintes termos:

 Se eu pudesse lhe daria todas as minhas folhas em troca da felicidade…

Interessando-me pela estranha resposta dela, indaguei o que lhe faltava para ser feliz.

Ela me olhou acanhadamente, cuspiu no chão, apoiou as raízes na parede e recusou-se a me dar a resposta.

A respeito desse fato só pude descobrir mais alguma coisa folheando os seus misteriosos livros, cujas figuras falavam muito mais do que as palavras indecifráveis do estranho conteúdo literário.

Pelo pouco que pude entender, um metal estava se desenvolvendo entre os seus galhos, e era esse metal que lhe permitia se destacar dentre as demais plantas do nosso planeta.

Na verdade, tudo que eu soube a respeito de Sidéria veio daqueles livros lamacentos que talvez foram buscados muito longe, em noites frias, em galáxias distantes do espaço sideral.

Todas as noites ela poderia, sem que eu visse, partir em incrível velocidade para lugares de seu conhecimento.

Calculando distâncias, órbitas, raios e diâmetros, ela poderia chegar a planetas longínquos.

Um certo dia, inesperadamente, Sidéria disse que iria partir para outra galáxia, confirmando minhas suspeitas.

Disse-me que lá as pessoas a compreenderiam, lá encontraria milhares de outros seres semelhantes a ela, que não visariam a riqueza que brotava em seus galhos, mas o amor que havia em seu coração.

Não posso negar… eu chorei… chorei diante dessas palavras, imaginando que os homens certamente a matariam para conseguir uma de suas valiosas folhas, pois, para grande parte dos humanos, o dinheiro vale mais que o amor.

Antes da despedida eu consegui fazer Sidéria prometer que voltaria ao menos uma vez por ano para me visitar.

E consegui mais:

Ela prometeu que depois que achasse um lugar para viver em paz, viria me buscar para conhecer seu novo lar e, se eu quisesse, poderia ficar morando lá com ela.

Eu lhe disse que esperaria ansioso por esse dia, que aceitaria conhecer seu novo lar e de bom grado ficaria morando com ela, claro que ficaria!

Na hora da despedida ela se aproximou de mim e me deu um beijo no rosto, dizendo:

 Você é a única pessoa desse mundo que eu realmente amei!

Sidéria desapareceu no espaço, deixando em mim, além da dor da saudade, a esperança de vê-la novamente daqui a algum tempo.

Fiquei vários dias com lágrimas nos olhos, murmurando a todo instante:

— Eu também te amo!

Este texto é protegido pela legislação dos direitos autorais. É proibida a reprodução total ou parcial sem constar o nome do autor: Sérgio Montiel Leal.

Observação: Escrevi esse conto em 1976, quando tinha 16 anos. Não corrigi o texto para não perder a essência original.

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Século XXX